Logo Olhi
    Eleições e democracia

    Dois mapas para o mesmo país: mulheres, democracia e o lugar do Brasil no mundo depois de 25 de outubro

    Rupturas e continuidades na política externa de um eventual quarto mandato de Lula ou de um governo Flávio Bolsonaro — e por que o voto das mulheres virou a principal fronteira desta eleição

    Isabela Mendez ·

    Há eleições em que a política externa é nota de rodapé. A de 2026 não é uma delas. Pela primeira vez em muito tempo, os dois candidatos que chegam ao segundo turno dedicaram capítulos inteiros de seus programas ao lugar do Brasil no mundo, e o motivo é visível no cotidiano: tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros, a disputa entre Washington e Pequim por minerais críticos, a fragmentação da América do Sul e uma ordem internacional em que o direito internacional parece cada vez mais negociável.

    No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). As pesquisas da última semana mostram empate: o Poder Data de 13 a 15 de outubro registrou 47% para cada um. Mas o empate esconde um país partido ao meio por gênero. No mesmo levantamento, Lula tinha 55% entre as mulheres e Flávio, 39%; entre os homens, o quadro se invertia, com 56% para Flávio e 39% para Lula. Raramente a clivagem de gênero foi tão nítida numa eleição presidencial brasileira.

    Essa divisão não é só um dado de campanha. Ela diz algo sobre a democracia brasileira e, como argumento aqui, também sobre o tipo de país que vai falar em nome das brasileiras no mundo.

    Dois programas, duas bússolas

    O programa de Lula, registrado no TSE com 84 páginas, faz da soberania o conceito que atravessa tudo — da defesa à ciência, da energia à segurança alimentar. Na política externa, promete manter a orientação “universalista”, diversificar parcerias, aprofundar o Mercosul e a integração sul-americana, defender a reforma da ONU e responder ao que chama de agressões comerciais com base no multilateralismo. Há duas novidades com peso geopolítico: uma política específica para minerais críticos e terras raras, voltada a agregar valor em território nacional, e a inclusão da governança digital e da inteligência artificial na agenda externa.

    O programa de Flávio Bolsonaro, “Para o Brasil Vencer o Atraso”, com 76 páginas, organiza a política externa em torno do que chama de “Nova Diplomacia Econômica”: uma atuação “pragmática e técnica”, focada em comércio bilateral, investimentos e integração às cadeias globais. Nomeia como prioridades a aproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina, propõe retomar a adesão à OCDE e transformar o Ministério das Relações Exteriores numa secretaria de Estado, nos moldes norte-americanos. Em discursos recentes, o candidato tem insistido que manterá uma relação economicamente pragmática com a China, sem alinhamento automático a Pequim ou a Washington.

    O que os governos anteriores ensinam

    Programas são promessas; governos são registro. E os registros ajudam a ler as promessas.

    O governo Jair Bolsonaro (2019–2022), referência explícita e recorrente no plano de Flávio, produziu a mais profunda inflexão da política externa brasileira desde a redemocratização. Sob o chanceler Ernesto Araújo, o Brasil retirou-se da UNASUL e ajudou a criar o Prosul, suspendeu sua participação na CELAC, deixou o Pacto Global para Migração, abriu mão do tratamento especial e diferenciado na OMC em troca do apoio americano à candidatura à OCDE e protagonizou atritos públicos com a China, seu maior parceiro comercial. Na agenda de gênero, o país aderiu em 2020 à Declaração do Consenso de Genebra, articulação internacional contrária ao aborto, e passou a atuar em fóruns multilaterais ao lado de governos que contestam a linguagem de “gênero” e de direitos sexuais e reprodutivos.

    Os governos Lula — os dois primeiros (2003–2010) e o atual (2023–2026) — seguiram outra lógica. A política externa “ativa e altiva” da primeira década apostou na integração regional (com a UNASUL), em coalizões do Sul Global (IBAS, BRICS) e na projeção multilateral. No terceiro mandato, o Brasil voltou à CELAC, retirou-se do Consenso de Genebra, presidiu o G20 em 2024 e o BRICS em 2025 e sediou a COP30 em Belém. Também enfrentou o custo dessa autonomia: a relação com os Estados Unidos de Donald Trump se deteriorou, e em julho de 2026 entrou em vigor uma tarifa adicional de 25% sobre milhares de produtos brasileiros.

    Rupturas possíveis

    Se Flávio vencer, a ruptura mais provável é de eixo. Analistas como Denilde Holzhacker, da ESPM, avaliam que um governo Flávio buscaria maior alinhamento com Washington e com governos próximos a Trump — e que o grande desafio seria fazer isso sem sacrificar a relação econômica com a China. A proposta de designar facções criminosas como organizações terroristas, citada em seu programa, aproximaria o Brasil da agenda de segurança dos EUA para o continente, com consequências para a soberania e para a cooperação militar regional. Na América do Sul, o eixo com a Argentina de Javier Milei tende a substituir a aposta no Mercosul como projeto político. No multilateralismo, é razoável esperar o retorno do Brasil a coalizões conservadoras em temas de gênero e direitos reprodutivos, como aconteceu entre 2019 e 2022.

    Se Lula vencer, a ruptura é menos de rumo e mais de ambiente. A estratégia de autonomia terá de operar num mundo mais hostil: tarifas, sanções, pressão americana sobre a cooperação com a China em tecnologia e minerais, e uma vizinhança sul-americana mais fragmentada ideologicamente. A continuidade das linhas gerais pode exigir mudanças de método — mais comércio com a Ásia e o Oriente Médio, maior ênfase na COP30 como legado e no acordo Mercosul–União Europeia como âncora.

    No que tange a questões de gênero, o Itamaraty segue como uma das carreiras de Estado mais masculinas do país, especialmente nos postos de chefia. A agenda Mulheres, Paz e Segurança, inaugurada pela Resolução 1325 do Conselho de Segurança, tem plano nacional, mas pouca centralidade. Nesse ponto, a diferença entre os candidatos é de grau: um governo Lula tende a manter compromissos multilaterais com igualdade de gênero e direitos sexuais e reprodutivos; um governo Flávio tende a revertê-los. Mas em nenhum dos cenários as mulheres aparecem como sujeito central da inserção internacional do Brasil.

    Democracia, mulheres e o olhar de fora

    O mundo acompanha esta eleição por três razões. A primeira é a estabilidade democrática: depois de 2022 e dos ataques de 8 de janeiro de 2023, investidores, governos e organismos internacionais medem o Brasil também pela capacidade de suas instituições processarem uma eleição apertada. A segunda é a geopolítica: o país é peça central na disputa por alimentos, energia e minerais críticos, e cada potência sabe o que ganha ou perde com cada resultado — não por acaso, o presidente Trump comentou publicamente o desempenho de Flávio no primeiro turno. A terceira é simbólica: o Brasil tem sido, na última década, um laboratório tanto da ascensão da extrema direita quanto da resistência a ela.

    Nesse quadro, o voto das mulheres é muito mais que um recorte de pesquisa. As brasileiras são maioria do eleitorado e, nesta eleição, votam de forma marcadamente diferente dos homens. Não se trata de um bloco homogêneo — as diferenças por religião, renda e região são enormes, e o eleitorado evangélico feminino, por exemplo, não segue o padrão geral. Mas a clivagem mostra que temas como trabalho de cuidado, igualdade salarial, violência e direitos reprodutivos pesam na decisão de voto, e que essas agendas têm dimensão internacional: são negociadas na ONU, no G20, no Mercosul e nos acordos comerciais.

    O que observar a partir de 26 de outubro

    • Os primeiros cem dias: quem será chanceler e qual será a primeira viagem presidencial — Washington, Buenos Aires, Pequim ou um vizinho sul-americano — dirão mais que qualquer discurso.
    • A votação brasileira na ONU em resoluções sobre gênero, direitos sexuais e reprodutivos e Palestina.
    • O destino do Mercosul, do acordo com a União Europeia e da relação com a Argentina.
    • A política para minerais críticos: o Brasil vai beneficiar em casa ou atrair capital estrangeiro para exportar?
    • A composição do Itamaraty: quantas mulheres ocuparão embaixadas e secretarias de primeiro escalão.

    Em 25 de outubro, os brasileiros escolhem um presidente. Mas escolhem também uma bússola: com que parceiros o Brasil anda, que regras defende e quem cabe na palavra “interesse nacional”. Para as mulheres, essa última pergunta nunca foi abstrata.

    Fontes: programas de governo de Lula/Alckmin e Flávio Bolsonaro/Alfredo Gaspar registrados no TSE (ago/2026); Congresso em Foco (14/08/2026); DGABC e Acessa.com (out/2026); Space Money (ago/2026); Revista Oeste; Times Brasil/CNBC (entrevista com Denilde Holzhacker, out/2026); Jornal Grande Bahia (ago/2026) sobre as tarifas americanas; Poder Data, pesquisa de 13 a 15/10/2026 (BR-04258/2026); resultado do 1º turno via TNH1/TSE (05/10/2026).

    Comentários

    Deixe seu comentário ou pergunta

    Nossa equipe lê e responde por aqui. Mas se quiser falar só com a gente, manda um whats.

    Seja a primeira pessoa a comentar.