Uma leitura crítica da conjuntura internacional com profundidade histórica
Nenhum dos eventos de 2026 é uma ruptura sem precedentes: cada um deles é a fase mais recente de um ciclo histórico mais longo.
Isabela Mendez ·
Mulheres, a partir deste artigo inaugural da Coluna Internacional da Olhi, as convido a pensar o mundo comigo, a partir do nosso lugar. Este artigo reflete um esforço de análise da conjuntura de 2026 construída a partir da minha análise, enquanto analista de Relações Internacionais, feminista e educadora, embasada em:
- vertentes teóricas do realismo (Waltz, Clausewitz) que descrevem o comportamento dos Estados;
- teoria marxista para explicar a estrutura material por trás dos conflitos;
- feminismo interseccional para perguntar quem paga o custo social das crises;
- e do keynesianismo progressista para pensar em respostas econômicas.
Ademais, é de extrema importância acrescentar uma camada de profundidade histórica, apoiada em autores que tratam crise, capitalismo e poder como processos de longa duração. A tese é que nenhum dos eventos de 2026 é uma ruptura sem precedentes, cada um deles é a fase mais recente de um ciclo histórico mais longo. Reconhecer esse ciclo muda a forma de explicá-lo, portanto, as convido para pensar juntas a ordem mundial vigente e suas transformações que afetam todas nós.
Retomada histórica
A periodização das eras do capitalismo
Hobsbawm dividiu a história do capitalismo moderno em eras longas: a Era das Revoluções, a Era do Capital, a Era dos Impérios e no século XX, a Era dos Extremos. Cada uma organizada por um arranjo específico de poder econômico, produção e legitimidade ideológica que entra em colapso quando suas próprias contradições se esgotam. Um dos argumentos mais úteis para 2026 é a sua leitura do que ele chamou de desmoronamento das certezas que estruturaram o mundo do pós-1945 (Bretton Woods): instituições, tratados e consensos construídos pós 2ª guerra e já sob a lógica da Guerra Fria não foram feitos para durar para sempre. O esgotamento simultâneo de vários deles: ONU, regime de desarmamento nuclear, ordem comercial multilateral, portanto, não é coincidência mas sim o sintoma de que estamos numa transição de era, não numa crise isolada.
A dominância financeira e a hegemonia do dólar
Belluzzo, um dos principais nomes da tradição keynesiana brasileira (Escola da Unicamp), estuda o que chama de dominância financeira do capitalismo contemporâneo: o fato de o dólar, como moeda reserva mundial desde Bretton Woods, permitir aos Estados Unidos financiarem déficits de outros países e projetarem poder militar e comercial de um jeito que nenhuma outra potência consegue replicar. A outra face dessa arquitetura é a vulnerabilidade estrutural das economias periféricas: decisões de juros, tarifas e política monetária tomadas em Washington se transmitem de forma assimétrica e não negociada para países de industrialização tardia, que não participam da decisão mas arcam com seus efeitos.
A crise como reorganização da hegemonia
Mazzucchelli lê as grandes crises do capitalismo não como acidentes, mas como momentos recorrentes de reorganização da divisão internacional do trabalho e da hegemonia entre as potências. Sob esta ótica, cada crise redistribui quem produz o quê, quem financia quem e os comandantes do sistema. Essa chave é especialmente útil para entender a disputa EUA-China de 2026 não como uma guerra comercial pontual, mas como disputa por hegemonia dentro de uma transição estrutural mais ampla do capitalismo global. O tipo de transição que, historicamente, redesenha alianças, cadeias produtivas e fronteiras de poder por décadas.
Oriente Médio
A guerra entre EUA, Israel e Irã e a disputa pelo Estreito de Ormuz repetem — com atores atualizados e novas nuances específicas — um padrão que remonta ao choque do petróleo de 1973: o controle sobre rotas e fontes energéticas como instrumento central de poder global, não como questão setorial. Hobsbawm situaria as raízes desse tabuleiro na sua própria Era dos Impérios: o desenho de fronteiras e esferas de influência no Oriente Médio pós-Primeira Guerra criou Estados cujas fronteiras nunca corresponderam plenamente às nações que os habitam, uma tensão que atravessa o século XX inteiro e ainda respinga nos conflitos de hoje.
Belluzzo acrescenta a camada financeira: desde os anos 1970, o chamado sistema do petrodólar dos países exportadores de petróleo vendendo em dólar e reciclando excedentes em ativos financeiros americanos é parte estrutural de como os Estados Unidos sustentam sua hegemonia monetária. Um choque de oferta de petróleo em 2026, como mostrou o Fórum Econômico Mundial ao tratar do impacto sobre China e Índia, não é apenas um problema de preço de combustível, é um evento que reverbera na arquitetura financeira internacional inteira, porque energia e dólar seguem amarrados desde aquele arranjo dos anos 1970.
Israel e Palestina
Para Hobsbawm, o século XX foi, entre outras coisas, o século em que o princípio da autodeterminação nacional se tornou norma universal, e ao mesmo tempo o século em que esse princípio foi aplicado de forma seletiva e incompleta. A Declaração Balfour (1917), o fim do mandato britânico e a criação de Israel em 1948 pertencem exatamente a esse capítulo da descolonização: uma questão nacional que nunca chegou a um desfecho reconhecido por ambas as partes. O fato de, em 2026, palestinos viverem um genocídio, mostra que quase um século depois de Balfour, o mesmo problema não foi resolvido.
Rússia e Ucrânia
A expiração do tratado New START em fevereiro de 2026, sem substituto negociado, é o tipo de evento que Hobsbawm chamaria de sintoma de fim de era: o regime de controle de armas nucleares construído ao longo da Guerra Fria e mantido por acordos bilaterais pós-1991 fazia parte da arquitetura de segurança que organizou décadas de relação EUA-Rússia. Sua erosão em 2026, mais do que uma corrida armamentista, sinaliza que essa arquitetura específica chegou ao fim, assim como a ordem europeia de segurança pós-Guerra Fria (que previa Rússia integrada, ainda que de forma tensa, ao sistema europeu) também se desfez com a guerra na Ucrânia.
Vale um paralelo histórico direto: o colapso de regimes de desarmamento sem substituto tem precedente na crise do sistema de tratados navais do entreguerras (décadas de 1920-30), quando o fim de acordos de limitação de armamentos antecedeu, sem ser causa única, uma escalada militar maior. Não se trata de prever repetição mecânica da história, mas de reconhecer que a ausência de regime de verificação tende, historicamente, a alimentar desconfiança mútua, exatamente o mecanismo que os tratados de controle de armas foram desenhados para conter.
EUA e China
Analisando a partir de Mazzucchelli, historicamente, transições de hegemonia entre potências não acontecem de forma linear nem pacífica, envolvem disputa simultânea por tecnologia, moeda, capacidade industrial e alianças militares, com a potência declinante tentando conter e a potência ascendente tentando romper. A disputa EUA-China em torno de semicondutores, IA, terras raras e Taiwan têm exatamente essa estrutura: não é uma guerra comercial isolada, é uma disputa por qual país vai organizar a próxima fase do capitalismo global, a nova ordem mundial.
Belluzzo acrescenta a variável monetária já que o dólar segue sendo a base do sistema financeiro internacional, o que dá aos EUA capacidade de sanção (como as restrições a semicondutores) que nenhuma outra potência tem de forma equivalente. A resposta chinesa de restringir terras raras, essenciais para tecnologia e defesa, é sintomática de uma potência que ainda não controla a arquitetura financeira global, mas controla um elo crítico da cadeia produtiva material. É disputa por hegemonia travada em dois terrenos diferentes ao mesmo tempo: o financeiro (onde os EUA têm vantagem histórica) e o produtivo-material (onde a China vem construindo vantagem).
Tarifaço Brasil–EUA
A tarifa de 50% sobre café e carne brasileiros, condicionada por Trump a exigências políticas internas, inclusive sobre a eleição presidencial de 2026, ilustra a persistência do lugar do Brasil numa divisão internacional do trabalho pensada por outros: da economia cafeeira do século XIX às commodities agrícolas e minerais do século XXI, o padrão histórico de inserção brasileira como exportador primário sujeito a decisões tomadas fora do país se repete, apenas com produtos diferentes.
Belluzzo chamaria atenção para a assimetria monetária por trás disso: o Brasil negocia tarifas, mas não decide juros americanos, política cambial do dólar nem regras do sistema financeiro em que está inserido, o que limita estruturalmente sua margem de barganha, independentemente de qual governo esteja no poder. A resposta institucional de recorrer à Organização Mundial do Comércio, usa o multilateralismo comercial como contrapeso possível a essa assimetria bilateral, mas com resultado incerto: o histórico de disputas na OMC mostra processos lentos, sem garantia de reversão da medida original.
Terras raras e padrão Centro-Periferia
A corrida por terras raras no Brasil, com investimento simultâneo de EUA, China, União Europeia e Alemanha, repete um padrão que Hobsbawm descreveu com precisão na sua Era dos Impérios: a expansão das potências industriais sobre regiões fornecedoras de matéria-prima, no final do século XIX, não era sobre território por si só, mas sobre garantir insumos que a própria indústria da metrópole não possuía. A diferença material do padrão de 2026 é que, hoje, a disputa não é apenas pela extração, mas por quem controla o refino e o processamento, a etapa que, segundo a Agência Internacional de Energia, concentra a maior parte do valor da cadeia.
Isso muda a pergunta histórica clássica de quem neocoloniza o território para quem processa e financia a cadeia, mas a lógica estrutural de fundo, a de que o país com a reserva nem sempre é o país que captura o valor, permanece reconhecível desde o século XIX até a Estratégia Nacional de Terras Raras de 2026.
América Latina
No caso latino a continuidade histórica não precisa de metáfora: a Doutrina Monroe é de 1823, e a captura de Nicolás Maduro por forças americanas, seguida da posse interina de Delcy Rodríguez sob supervisão dos EUA e de um plano para reativar o petróleo venezuelano, foi descrita pela própria imprensa financeira como retorno explícito dessa lógica. Hobsbawm documentou, ao longo da Era dos Impérios e da Era dos Extremos, como os Estados Unidos trataram historicamente a América Latina como esfera de influência natural, de intervenções no Caribe e na América Central no início do século XX à Doutrina Kirkpatrick da Guerra Fria. Contemporaneamente, 2026 mostra essa lógica reaparecendo de forma menos disfarçada do que em décadas recentes, o que é motivo honesto de preocupação — não apenas política mas preocupação enquanto cidadãos globais, cujos direitos foram garantidos com muita luta e permanecem vulneráveis. Entretanto, reconhecer o padrão histórico de intervenção americana não deve apagar a responsabilidade interna de regimes que fragilizam suas próprias instituições. A combinação de vulnerabilidade doméstica com padrão histórico de intervenção externa, e não um fator isolado, explica por que o episódio venezuelano se tornou possível em 2026 e porque a América Latina está em alerta.
Crise do multilateralismo
A ONU, aos 80 anos, tentando reformar um Conselho de Segurança desenhado em 1945 para um mundo com cinco potências vencedoras da Segunda Guerra é, na leitura de Hobsbawm, o exemplo mais claro de instituição sobrevivendo à era que a criou. O mesmo vale para outras instituições da arquitetura de Bretton Woods, que Belluzzo estuda como base do sistema monetário internacional: pensada para um mundo de capitais controlados e poucos polos industriais, ela opera hoje sob pressão de um sistema financeiro globalizado e digitalizado que ela nunca foi desenhada para regular. Isto explica porque tarifas, sanções e choques financeiros se propagam hoje com uma velocidade que a arquitetura original não previu.
A COP 31 e o debate sobre desinformação por inteligência artificial nas eleições, por fim, são as frentes mais novas desse mesmo problema. Instituições de governança global tentando regular fenômenos (mudança climática acelerada, inteligência artificial generativa) que simplesmente não existiam quando essas instituições foram desenhadas.
Síntese
Juntando as três lentes de análise, Hobsbawm mostra que estamos no fim de uma era organizada pelas instituições do pós-1945 e que o esgotamento simultâneo da ONU, do regime de desarmamento nuclear e da ordem comercial multilateral não é coincidência, é sintoma de transição histórica. Belluzzo mostra que essa transição tem uma espinha dorsal monetária e financeira: o dólar e a arquitetura de Bretton Woods, que segue dando aos EUA capacidade de projetar poder de forma assimétrica sobre o resto do mundo. Mazzucchelli mostra que a disputa EUA-China é, historicamente, o tipo de rearranjo de hegemonia que redesenha décadas de cadeias produtivas e alianças, não um episódio passageiro.
Somado ao instrumental teórico do Realismo das Relações Internacionais, que descreve o comportamento estatal, a análise marxista localiza o interesse material concreto por trás de cada disputa, o feminismo interseccional analisa o custo humano da guerra e o keynesianismo progressista pensa uma resposta econômica coordenada, enquanto a camada histórica reforça uma conclusão política, não apenas analítica: reformar instituições multilaterais, reconstruir regimes de controle de armas e buscar cooperação internacional em 2026 é reconhecer que, historicamente, os períodos de transição de era sem instituições que os organizem tendem a ser os mais violentos, portanto defender esses mecanismos, mesmo imperfeitos, é uma aposta política deliberada contra essa tendência.
Que este artigo inicial tenha plantado em todas as caras leitoras muitas perguntas, e que possamos, a partir de agora, dentro da Olhi buscar compreensão juntas.