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    Saúde Mental

    Carentes de proteínas, vitaminas e amor

    Eliana Rebechi
    30 Jan 2026
    6 min de leitura
    Carentes de proteínas, vitaminas e amor

    A relação que nós, seres humanos, estabelecemos com o peso corporal, sempre foi marcada por conflitos. Houve tempo que gordura era sinal de posse, riqueza e poder.


    O mundo mudou. Hoje a grande maioria das pessoas, (sem esquecer que de maneira injusta e cruel ainda temos muita fome no mundo) não precisa mais sair para caçar ou lutar e enfrentar grandes adversidades para conseguir comida, temos ao alcance da mão e em abundância. As empresas de alimentos investem alto para garantir que seus produtos sejam apreciados, somos diariamente assediados para consumir e consumir. A diversidade é imensa: alimento diet, light, zero açúcar, sem glúten, sem lactose, sem carboidratos, shakes, sopinhas mágicas etc., etc.


    Do outro lado temos as empresas da "beleza" que também investem pesado para nos fazer acreditar que só seremos felizes e realizadas se consumirmos seus produtos: dietas variadas e absurdas, jejuns, cirurgias plásticas que reduzem, esticam, puxam, preenchem, redução de estômago, balões, sugadores, cremes e mais cremes, Botox e, é claro as canetas que provocam rápido emagrecimento com alto custo e duvidosa garantia. E por aí vai, tudo prometendo juventude, magreza e consequentemente sucesso! Ao infinito e além!


    Empresas milionárias! E nós? Nós somos reféns. Estamos aprisionados em um corpo que não pode mais se comunicar, não pode mais expressar desejos ou vontades. Tudo precisa estar contido e controlado.


    Comer não é mais um prazer, atender a uma necessidade básica. É algo que se faz escondido, algo para se envergonhar e que salienta nossa pouca força de vontade, é um pecado e como todo pecado, uma tentação que nos atormenta, nos coloca à prova e quando cedemos (ou nos excedemos) sentimos culpa. Existe a possibilidade do perdão, claro, mas, desde que sejam feitas as penitências e castigos ao corpo: jejuns e dietas, academia, muita atividade física, e carregar sempre, o "peso" da culpa.


    Aquele que consegue ficar sem pecar (ou seja, sem comer) ganha como recompensa um corpo sarado, magro, enfim, dentro de um padrão estético que valoriza todo o esforço que você faz diariamente e infinitamente. É mesmo? Não é bem assim. Você se esforça, mas nunca consegue atingir a meta.


    E que padrão estético é esse? Inalcançável, a meu ver. Porque não basta ser magro, tem que ter o corpo trabalhado e com medidas perfeitas. Tem também que ser jovem. Não pode ter marcas, rugas, estrias, celulite, dobrinhas etc. Envelhecer? Jamais! Ah! E não podemos esquecer que neste "pacote" há a exigência de ser bem-sucedido. Você não poderá ser bem-sucedido na carreira se for um gordo, julgado e condenado como desleixado e preguiçoso.


    Nosso corpo é sábio. Ele nos avisa da fome, da sede, do estresse, do medo, e, nós muitas e muitas vezes não escutamos tão preocupados que estamos em atender as solicitações externas. E aí adoecemos, porque quando nosso corpo não aguenta tanta pressão ou demandas, ele adoece. Este adoecimento precisa ser visto não como forma de castigo, mas como forma de expressão. Isto se chama expressão psicossomática.


    Qual é a saída? Escutar mais nosso corpo, com certeza! Ouvir nosso coração, sem dúvida! Não se deixar seduzir por falsas promessas e por felicidade às custas de muito sofrimento. Não há nenhum problema em querer ser bonita e saudável, porém quando nosso projeto de vida é ser magro e eternamente jovem, algo está fora da ordem.


    Reflita: quero continuar sendo refém? quero viver para enriquecer projetos que me escravizam?


    Estamos a cada dia escrevendo nossa biografia e nosso corpo é a expressão destes registros. Ter um corpo saudável não é ter um corpo domado, controlado, sem vitalidade. Nossa vida psíquica pode e deve estar comprometida com aprendizado e crescimento, que vai além das questões estéticas. Aprendemos com a dor, com a tristeza e, também com a alegria e as aventuras que a vida nos proporciona, com isto crescemos e nos fortalecemos para viver de forma mais integral, mais produtiva e, claro mais saudável.


    Alimentar alguém e a nós mesmos é um ato de afeto antes de tudo. Se a comida não vem carregada de afeto, ela é vazia, pobre, não alimenta. Ficamos carentes de proteínas, vitaminas e de amor.

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