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    Como buscar ajuda em caso de violência pode fazer bem para a família?

    Stefanie Schmitt, Bruna Eugênia
    30 Abr 2025
    6 min

    Violência contra a mulher: como reconhecer os sinais — e por que buscar ajuda pode transformar toda a família


    A violência contra a mulher nem sempre é evidente. Na maioria dos casos, ela começa de forma sutil, dentro de relações que parecem comuns, aceitáveis ou até esperadas.


    E é justamente por isso que tantas mulheres têm dificuldade de reconhecer o que estão vivendo.


    Neste bate-papo da Olhi sobre como buscar ajuda em caso de violência pode fazer bem para a família, a psicóloga Bruna Eugênia trouxe uma reflexão importante: o maior desafio, muitas vezes, não é sair da situação — é perceber que ela existe.


    "Muitas mulheres e meninas não conseguem ter repertório suficiente para reconhecer uma situação de violência dentro de um casamento, dentro de uma família", explica Bruna Eugênia.


    Essa dificuldade não acontece por acaso. Ela está ligada a uma construção cultural que normaliza determinados comportamentos e, ao mesmo tempo, faz com que a mulher duvide da própria percepção.


    Quando a violência não parece violência


    Um dos pontos mais importantes para entender esse cenário é que a violência raramente começa com agressão física.


    Ela aparece antes, em comportamentos que vão sendo incorporados ao dia a dia:


    • controle sobre roupas, amizades ou rotina
    • ciúmes excessivo
    • desvalorização constante
    • tentativa de isolamento

    Esses sinais, muitas vezes, são interpretados como cuidado, interesse ou até amor.


    E, pouco a pouco, o limite do que é aceitável vai sendo deslocado.


    Bruna explica que esse processo está diretamente ligado a uma narrativa social que ainda persiste:


    "Existe um discurso que naturaliza a violência como algo esperado do comportamento masculino."


    Quando isso acontece, a mulher passa a questionar menos o comportamento do outro — e mais a si mesma.


    A culpa ainda recai sobre a mulher


    Outro fator que dificulta o reconhecimento da violência é a forma como ela é interpretada socialmente.


    "Muitas vezes há uma culpabilização da mulher, como se ela estivesse ali porque quer ou porque merece", afirma Bruna Eugênia.


    Esse tipo de discurso gera um efeito silencioso, mas profundo.


    A mulher começa a:


    • minimizar o que está vivendo
    • sentir vergonha
    • evitar falar sobre o assunto
    • acreditar que está exagerando

    E, quando tenta buscar ajuda, pode encontrar julgamento em vez de acolhimento.


    Isso reforça o isolamento — e mantém o ciclo.


    Quando o agressor está dentro da família


    Diferente do que muitas vezes se imagina, a violência contra a mulher raramente vem de fora.


    "Estatisticamente, o agressor muitas vezes está dentro da família", destaca Bruna Eugênia.


    Isso torna o processo muito mais complexo.


    Porque não se trata apenas de sair de uma situação. Trata-se de lidar com:


    • vínculos afetivos
    • dependência emocional ou financeira
    • filhos e dinâmica familiar
    • medo de retaliação

    E, principalmente, com a quebra de uma estrutura que, muitas vezes, levou anos para ser construída.


    O momento em que a consciência chega


    Existe um momento em que algo começa a mudar.


    Pode ser uma conversa, uma informação ou um incômodo que se repete. E, aos poucos, a mulher começa a perceber que aquilo que está vivendo não é normal.


    "Esse momento é quando vira uma chave, mas também é um momento de mais vulnerabilidade", explica Bruna Eugênia.


    Porque, a partir dali, surgem novas perguntas:


    • o que fazer?
    • para onde ir?
    • como sair dessa situação?

    E nem sempre há respostas imediatas.


    Por que sair não é simples


    Existe uma expectativa de que, ao reconhecer a violência, a mulher simplesmente vá embora.


    Mas a realidade é muito mais complexa.


    O processo pode envolver idas e vindas, tentativas e recuos.


    "Se ela voltou, tem um motivo. E isso não deve ser julgado, mas compreendido", afirma Bruna Eugênia.


    Esse movimento não é fraqueza. É parte do processo.


    Porque sair exige condições emocionais, financeiras e, muitas vezes, uma rede de apoio que nem sempre está disponível.


    O papel da terapia no processo de saída


    Nesse cenário, o apoio psicológico não é apenas importante — é estruturante.


    A terapia cria um espaço onde a mulher pode compreender o que está vivendo e organizar seus próximos passos.


    "Falar sobre a própria história pode trazer um alívio e ajudar a atravessar esse trauma", explica Bruna Eugênia. Contar com acompanhamento terapêutico é parte essencial desse processo.


    Mais do que isso, o acompanhamento ajuda a:


    • identificar padrões
    • reconstruir a autoestima
    • entender os impactos da violência
    • criar estratégias seguras de mudança

    Tudo isso sem julgamento.


    Por que buscar ajuda transforma toda a família


    Um dos pontos centrais do bate-papo é que a decisão de buscar ajuda não afeta apenas a mulher.


    Ela impacta toda a estrutura familiar.


    "É possível ensinar que existem outras formas de se relacionar, sem violência", afirma Bruna Eugênia.


    Quando uma mulher rompe um ciclo:


    • filhos passam a ter novas referências
    • padrões deixam de ser reproduzidos
    • a dinâmica familiar se transforma

    Isso é especialmente importante quando se considera que a violência pode atravessar gerações.


    Romper o ciclo é também interromper a continuidade desse padrão.


    Os impactos da violência na saúde mental


    A violência não afeta apenas o relacionamento. Ela impacta diretamente a saúde emocional e física.


    Situações prolongadas de estresse podem levar a:


    • ansiedade
    • depressão
    • estresse pós-traumático
    • dificuldade de se relacionar
    • perda de autoestima

    E, sem acompanhamento, esses efeitos podem se prolongar por anos.


    Onde buscar ajuda em caso de violência


    Saber onde buscar apoio é um passo importante para sair do isolamento.


    Algumas opções incluem:


    • Central de Atendimento à Mulher (180)
    • Delegacia da Mulher
    • Casa da Mulher Brasileira
    • unidades de saúde (SUS)
    • organizações de apoio e redes especializadas

    Bruna reforça que, quando não for possível acessar esses canais diretamente, é importante começar com alguém de confiança:


    "Se você não consegue falar com alguém próximo, procure um profissional ou alguém que possa te ouvir com empatia."


    Por que pedir ajuda exige coragem


    Buscar ajuda não é um processo simples.


    Envolve medo, incerteza e exposição.


    "Buscar ajuda exige coragem", diz Bruna Eugênia.


    Coragem para questionar o que parecia normal.

    Coragem para olhar para a própria realidade.

    Coragem para dar um primeiro passo — mesmo sem saber exatamente o que vem depois.


    Reconhecer já é um começo


    Você não precisa ter todas as respostas para começar.


    Reconhecer que algo não está bem já é um movimento importante.


    A partir daí, novas possibilidades começam a surgir.


    E, pouco a pouco, o que parecia impossível começa a se reorganizar.


    Buscar ajuda não é apenas uma decisão sobre sair de uma situação.


    É uma decisão sobre viver de outra forma.


    E isso pode transformar não só a sua vida — mas tudo ao seu redor.


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