Como desenvolver habilidades de liderança?
Liderar passa por autoconhecimento, comunicação e capacidade de construir relações que façam as pessoas caminharem juntas.
É comum associar liderança a características que parecem nascer com a pessoa: facilidade para falar, capacidade de envolver os outros, segurança para tomar decisões. Algumas pessoas realmente demonstram essas habilidades desde cedo. Isso não significa, porém, que liderança seja um talento reservado a poucos ou que quem começa a empreender precise ter um perfil específico para conseguir conduzir outras pessoas.
Para a psicóloga e especialista em desenvolvimento humano Bárbara Crespo, habilidades de liderança podem ser desenvolvidas, desde que exista disposição para olhar para si e rever a forma como nos relacionamos com os outros. Essa compreensão também amplia o próprio significado de ser líder. Nem toda liderança envolve um cargo de gestão ou uma equipe formal. É possível liderar um projeto, uma iniciativa, um negócio ou uma ação dentro de uma comunidade e mobilizar pessoas em torno de um objetivo compartilhado.
“A liderança, ela tem a ver com relação, um relacionamento”, explica Bárbara. É a capacidade de se conectar com outras pessoas e influenciá-las em direção a algo que faça sentido para todos. Quando a liderança é entendida dessa maneira, desenvolvê-la deixa de significar aprender a ocupar uma posição de autoridade e passa a exigir um trabalho contínuo sobre a forma como cada pessoa se coloca nas relações.
Liderança e gestão de pessoas não são a mesma coisa
A diferença entre liderar e fazer gestão de pessoas ajuda a entender por que alguém pode exercer liderança mesmo sem ocupar formalmente um cargo de chefia. Uma pessoa pode conduzir um projeto ou mobilizar outras em torno de uma iniciativa sem necessariamente ser responsável por contratar, avaliar ou acompanhar uma equipe.
Quando existe um time sob sua responsabilidade, porém, outras competências passam a fazer parte desse papel. É preciso esclarecer responsabilidades, alinhar expectativas, estabelecer metas e acompanhar o desenvolvimento das pessoas. Também entram nessa relação os feedbacks e a criação de espaços para que todos compreendam o que se espera deles.
Bárbara descreve esse processo como uma construção: “você vai construindo essa relação de uma forma bacana, saudável, gostosa, conectado ali com o objetivo que é comum pra ambas as partes”.
Essa distinção é especialmente relevante para quem começa um negócio e, aos poucos, passa a contratar outras pessoas. Muitas vezes, a empresa cresce antes que o empreendedor tenha tido tempo de se preparar para liderar uma equipe. A liderança vai sendo aprendida enquanto novas responsabilidades aparecem, mas isso não significa que precise depender apenas de tentativa e erro. Existem habilidades que podem ser desenvolvidas para tornar esse caminho mais consciente.
Desenvolver liderança começa por olhar para si
Para Bárbara, o primeiro passo é a autoconsciência. “É olhar pra si, entender quem é, entender quais são suas fortalezas, entender quais são as suas vulnerabilidades, entender o que que você precisa cuidar.”
Conhecer as próprias potências ajuda a perceber o que já pode ser usado na relação com a equipe. Reconhecer vulnerabilidades permite identificar comportamentos que precisam ser revistos. Esse olhar se torna ainda mais necessário porque liderar significa lidar continuamente com pessoas diferentes, que não necessariamente pensam, trabalham ou se comunicam da mesma maneira.
A autoconsciência também ajuda a abandonar a expectativa de que existe um momento em que alguém finalmente se torna um líder pronto. “O líder nunca tá pronto”, afirma Bárbara. Os desafios mudam, as equipes mudam e o contexto também muda. Por isso, a capacidade de rever atitudes e continuar aprendendo faz parte da própria liderança.
Esse processo exige abertura. Uma avaliação negativa da equipe, uma dificuldade recorrente de comunicação ou um conflito podem ser desconfortáveis, mas também oferecem informações sobre o que precisa ser trabalhado. Em vez de defender uma forma fixa de liderar, a pessoa pode aprender a observar como suas atitudes chegam aos outros e o que precisa mudar para que a relação funcione melhor.
Uma boa liderança precisa aprender a se comunicar com pessoas diferentes
Depois da autoconsciência, a comunicação ocupa um lugar central. Bárbara usa uma imagem simples para explicar por que se comunicar bem não significa falar da mesma maneira com todo mundo.
“A nossa comunicação é como se fosse uma música. A gente tá emitindo uma música. E aquela música vai combinar com determinado tipo de pessoa ou não.”
Se a intenção é realmente alcançar alguém, é preciso perceber como aquela pessoa recebe a mensagem. Em alguns momentos, será necessário ser mais direto; em outros, explicar melhor, escutar mais ou mudar a abordagem. Como brinca Bárbara, “tem horas que você vai ter que tocar um rock and roll e tem horas que cê vai ter que vim com um forrozinho”.
Essa flexibilidade não significa deixar de ser quem se é. Ela nasce justamente da percepção sobre a própria maneira de se comunicar e da abertura para entender quem está do outro lado. É nesse movimento que comunicação, empatia e escuta começam a se encontrar.
Para saber como chegar a uma pessoa, é preciso estar genuinamente interessado em conhecê-la, compreender o que importa para ela e perceber o que faz ou não sentido naquela relação. Bárbara reúne essas capacidades nas habilidades socioemocionais, que envolvem tanto a interação com os outros quanto o reconhecimento dos próprios sentimentos, gatilhos e reações.
A forma de liderar também interfere na saúde das pessoas
Essas habilidades ganham ainda mais importância quando se considera quanto tempo da vida é passado no trabalho. A liderança participa diretamente da construção desse ambiente e pode contribuir para relações mais saudáveis ou intensificar situações de sobrecarga, conflito e sofrimento.
Bárbara relaciona essa responsabilidade à necessidade de observar os riscos psicossociais presentes no trabalho. O líder precisa perceber “qual que é o risco que tá ali envolvido naquele ambiente, naquele tipo de trabalho, naquela interação com a pessoa”, inclusive para reconhecer quais riscos sua própria atuação pode estar provocando.
Para ela, cuidar desse ambiente não precisa ser justificado apenas por indicadores financeiros ou de produtividade. “Só pela questão humana, já tá ótimo pra você pensar que é um bom motivo pra você investir nisso.”
A forma como metas são estabelecidas, feedbacks são dados e conflitos são conduzidos faz parte da experiência das pessoas no trabalho. Por isso, desenvolver habilidades de liderança também significa compreender a responsabilidade existente sobre a qualidade dessas relações.
“O olhar primeiro é pra pessoas, porque são elas que vão fazer a coisa acontecer ou não.”
Liderar não significa fazer tudo sozinho
Assumir uma posição de liderança também pode criar uma expectativa difícil de sustentar: a ideia de que o líder deveria saber o que fazer em qualquer situação. Bárbara questiona essa imagem. Nenhuma pessoa se transforma em uma espécie de super-herói porque passou a ocupar uma posição de liderança.
“Você não precisa ter todas as respostas porque você é líder”, explica. “Você pode trazer essas respostas construindo junto com as pessoas que estão contigo.”
Essa mudança de perspectiva desloca a liderança do lugar de controle para o de construção coletiva. Em vez de enxergar quem trabalha ao seu lado apenas como alguém que deve obedecer, o líder passa a reconhecer conhecimentos, experiências e potências que podem contribuir para encontrar caminhos melhores.
Para Bárbara, “a gente não precisa tá sozinho na liderança. Eu acho que a gente tem que aproveitar o poder do coletivo”. Quando existe abertura para pedir ajuda, reconhecer dificuldades e admitir que nem sempre se sabe o que fazer, a relação também se torna mais humana.
A vulnerabilidade, nesse caso, pode criar proximidade. “Quando a pessoa se demonstra vulnerável em alguns momentos, mostrando que é um ser humano e que tá ali também com perrengue, com dificuldade, que às vezes não sabe o que fazer, mas que pede ajuda, que tá disponível, que tá disposta, que tá aberta, eu acho que isso aproxima as pessoas.”
Desenvolver habilidades de liderança, portanto, não significa construir uma imagem de alguém que domina todas as situações. Significa aprender a se conhecer, ajustar a própria comunicação, escutar, criar relações saudáveis e compreender que ninguém conduz um time sozinho.
Esse aprendizado também dificilmente fica restrito ao trabalho. Bárbara conta que, depois de processos de desenvolvimento de liderança, é comum ouvir pessoas dizendo que começaram a perceber as mesmas questões nas relações com filhos, pais e familiares. Autoconsciência, empatia, comunicação e escuta acompanham a pessoa nos diferentes papéis que ela ocupa.
Como resume Bárbara, “a gente é uma só”. Quando aprendemos a olhar de outra maneira para nós mesmos e para quem está ao nosso lado, a mudança pode começar no trabalho, mas não necessariamente termina nele.
Se você quer desenvolver esse olhar com apoio profissional, conheça especialistas da área de saúde mental na Olhi.
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