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    De quem é a responsabilidade de educar crianças feministas?

    Julie Maciel, Fernanda Massatelli
    10 Dez 2025
    6 min

    Quando falamos em educar crianças feministas, muitas pessoas pensam que se trata de "ensinar feminismo" como ideologia. Mas, nesta conversa da Olhi com a psicóloga Fernanda Massatelli, o ponto é outro: educar crianças feministas é, sobretudo, ensinar igualdade, respeito e quebrar padrões de gênero que alimentam desigualdades — e, no limite, a violência.


    Como Fernanda explica, "quando a gente fala em feminismo, a gente tá falando em um movimento que luta pela igualdade, pelos direitos das mulheres". E ela reforça: mesmo mulheres que não se identificam como feministas, em geral defendem coisas que o feminismo tornou possíveis, como "poder ir e vir", "trabalhar", "ter o dinheiro delas" e "não serem agredidas".


    A pergunta, então, não é se "alguém vai ensinar feminismo para uma criança". A pergunta real é: quem está assumindo a responsabilidade por educar crianças para a igualdade?


    A criança aprende pelo que vê, não só pelo que ouve


    Um dos pontos centrais da Fernanda é que a infância é atravessada por modelos. A criança observa e aprende o que é "ser menina", "ser menino" e "ser gente" a partir do que vê na prática.


    Ela resume assim: "a criança aprende pelos modelos".


    E esses modelos não estão só em casa. Ela organiza como:


    • grupo doméstico (família),
    • grupo escolar (escola),
    • grupo comunitário (bairro, esporte, igreja, convivências).

    Ou seja: a responsabilidade é coletiva, porque a formação também é.


    O que passa despercebido (e reforça desigualdade)


    Fernanda faz uma comparação simples: muita gente evita palavrão na frente de criança porque sabe que influencia. Mas quando o tema é gênero, a gente deixa passar — e às vezes reforça.


    Ela dá exemplos do cotidiano:


    • dizer para a menina "sentar com a perninha fechada", "não gritar", "ser uma mocinha";
    • dizer para o menino "você é homem, não pode chorar".

    E ela provoca: "o que é ser homem, né? O que que é isso que a gente tá colocando em meninos tão novinhos?"


    Além disso, há mensagens sutis que viram regra:


    • menino tem que "jogar bola", "ir pra rua", "ser ativo";
    • menina é associada ao "cuidado" e à contenção.

    Esses padrões parecem pequenos, mas moldam expectativa, autoestima, autonomia e também a forma como meninos aprendem poder e privilégio.


    Não é só "educação em casa": a sociedade disputa essa formação


    Mesmo que uma família tente educar para a igualdade, a criança e o adolescente estão inseridos em um mundo que muitas vezes reforça o oposto.


    Fernanda lembra que, especialmente na adolescência, a pressão do grupo pesa: "a questão da masculinidade, ela é muito forte". Meninos podem fazer coisas que nem concordam, só para "provar" pertencimento.


    E aí vem um ponto importante: não dá para garantir "só pela nossa educação".


    Por isso, educar crianças para a igualdade não é um trabalho isolado: é uma disputa cotidiana por referências — na escola, na família, na comunidade e nas instituições.


    "São as mães que criam" é um jeito de culpar mulheres (de novo)


    A live bate de frente com um discurso muito comum: "ah, mas são as mães que criam".


    Fernanda mostra como essa frase costuma virar culpabilização feminina, inclusive em disputas como "sogra x nora". E ela destaca que, quando alguém diz "família", quase sempre está falando "mãe".


    Ela pontua: "quando fala família é sempre a mãe".


    E isso aparece de duas formas:


    • se o filho "dá certo", a mãe é "guerreira" (mas ninguém pergunta "a que custo?");
    • se o filho "dá errado", a culpa cai na mãe — e não no pai ausente, nem na falta de suporte social.

    Na conversa, Julie também reforça essa naturalização: "Como é naturalizado esse pai não estar, né?"


    Então… de quem é a responsabilidade?


    A Fernanda traz uma resposta muito objetiva — e com base legal e social.


    Ela menciona o Estatuto da Criança e do Adolescente e resume que o dever é "da família, da comunidade e do Estado".


    E, ao mesmo tempo, ela puxa para o cotidiano: não dá para dizer "não é meu filho, não é minha responsabilidade", quando nossos exemplos e nossas omissões também educam.


    Ela crava: "Tá, mas quem é a sociedade, né? Então assim, eu sou a sociedade, então eu preciso mudar. Você é a sociedade, você precisa mudar."


    Ou seja:


    • família educa (e não só a mãe),
    • escola influencia,
    • comunidade reforça ou corrige modelos,
    • Estado precisa garantir proteção e políticas, e
    • cada pessoa adulta ao redor da criança vira referência.

    Educar meninas é importante — mas não é suficiente


    A Fernanda reconhece o valor de educar meninas para:


    • autoconfiança,
    • autonomia,
    • independência,
    • identificar relações abusivas,
    • não normalizar violência.

    Mas ela alerta: "não é suficiente".


    Porque, na prática, não adianta só as meninas saberem se o mundo continua responsabilizando mulheres por violência ("se você sabe que existe assédio, por que saiu assim?").


    Por isso, ela enfatiza: "a gente precisa focar muito na educação dos meninos".


    O papel dos homens: sair da omissão e dos "micromachismos"


    Um trecho forte do diálogo é sobre o "nem todo homem". O ponto não é "ser um homem que não agride", mas agir quando o machismo aparece no cotidiano.


    Julie cita exemplos práticos:


    • não fazer "piadinha machista, homofóbica, racista",
    • não compartilhar nude,
    • repreender o amigo,
    • posicionar-se — mesmo sendo desconfortável no começo.

    Fernanda complementa: não basta "não reproduzir", é preciso entender que, para haver igualdade, homens também precisam abrir mão de privilégios e agir no espaço onde circulam.


    Ela resume bem: "não é só você concordar, mas você entender que você também tem que abrir mão de alguns privilégios."


    Um começo possível: observar modelos e escolher diferente


    Se essa discussão parece grande, a live oferece um caminho bem concreto: perceber os modelos que passam batido e decidir, dia a dia, o que você reforça.


    Fernanda diz que, quando a gente estuda mais, percebe: "Caramba, eu faço isso na minha casa."


    E aí vem a parte importante: dá para mudar.


    Para quem quer se aprofundar


    No final, Fernanda indica um livro curto e acessível: "Para educar crianças feministas", da Chimamanda Ngozi Adichie (ela comenta que "é curtinho", "fácil de ler" e ajuda a enxergar padrões do dia a dia).


    Educar crianças feministas não é "um tema de março" ou algo para discutir só quando "acontece uma violência maior". Como a Fernanda lembra, "é um tema para ser discutido sempre". E, quando surgem dúvidas sobre como orientar esse caminho, contar com apoio de uma profissional pode ajudar.


    Porque, no fim, não é só sobre crianças. É sobre o tipo de sociedade que a gente está construindo — em casa, na escola, na comunidade e no mundo.


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