Como cuidar do dinheiro e evitar o endividamento?
Organizar as finanças começa por entender quanto entra e quanto sai, mas também passa pela forma como aprendemos a lidar com o dinheiro ao longo da vida.
Saber quanto dinheiro entra e quanto sai parece uma orientação básica para quem quer organizar a vida financeira. Ainda assim, há pessoas que nunca fizeram esse diagnóstico e outras que evitam olhar para as próprias contas porque têm medo do que vão encontrar.
Para a consultora e terapeuta financeira Elaine Almeida, esse é o primeiro passo para começar a cuidar do dinheiro: “a gente entender quanto que está entrando de dinheiro, na sua conta, no seu negócio, quanto que está saindo”. A partir desse olhar, é possível perceber se os gastos estão compatíveis com a renda e começar a pensar no que precisa mudar.
A dificuldade é que nossa relação com o dinheiro não começa quando abrimos uma conta bancária ou recebemos o primeiro salário. Ela é construída muito antes, a partir do que aprendemos, observamos e ouvimos sobre dinheiro. E, para muitas mulheres, esse aprendizado também foi marcado pela ideia de que finanças não eram um assunto do qual elas deveriam se ocupar.
Por que é tão difícil começar a cuidar do dinheiro?
Elaine lembra de ouvir, desde muito nova, que “essa coisa de dinheiro era mais coisa de homem”. Hoje, ainda encontra mulheres que dizem que quem cuida das finanças é o marido ou que não entendem de dinheiro porque são “de humanas”.
A maneira como cada pessoa cresceu ajuda a explicar parte dessa dificuldade. “Se ela cresceu dentro desse lugar, isso é natural, mas se não foi o lugar de convivência dela, então vai sim existir essa aversão, essa dificuldade, muitas vezes é uma evitação”, explica Elaine.
Em alguns casos, evitar olhar para o dinheiro também significa adiar o encontro com uma realidade que já é percebida. A pessoa sabe que está gastando mais do que deveria ou mantendo um estilo de vida que não corresponde ao que ganha, mas prefere não colocar os números no papel.
Ao mesmo tempo, os estímulos para consumir aumentaram. Elaine chama atenção para o impacto das redes sociais, onde diferentes estilos de vida, produtos e experiências aparecem o tempo todo. Para quem empreende, a situação pode ser ainda mais delicada, porque as mesmas redes que incentivam o consumo também são usadas para divulgar produtos, encontrar clientes e vender.
Por isso, algumas mudanças precisam caber na rotina real de cada pessoa. Elaine cita atitudes como desligar notificações e estabelecer um momento da semana para olhar as finanças. Não existe, para ela, uma fórmula única. O caminho depende do que funciona para aquela pessoa e do que ela consegue transformar em hábito.
Ter acesso ao dinheiro é diferente de ter autonomia financeira
Quando a discussão envolve mulheres e dinheiro, Elaine chama atenção para uma diferença que aparece com frequência em seus atendimentos. Uma mulher pode participar da administração das contas da casa e, ainda assim, não ter autonomia para tomar determinadas decisões financeiras.
“Ela pode até ter um acesso ao dinheiro, mas ela não tem autonomia para gerenciar o dinheiro para algo que não seja além da estrutura interna da casa.”
Elaine relata situações em que a mulher administra o orçamento doméstico, mas precisa conversar com o marido antes de investir em algo próprio. Isso pode acontecer até quando existe uma conta conjunta e, portanto, acesso aos recursos da família.
A questão também aparece quando a mulher quer investir em uma formação ou em um negócio. Além de precisar compartilhar a decisão, pode surgir o medo de que o investimento dê errado e a responsabilidade pelo prejuízo recaia sobre ela.
A experiência de Elaine mostra, assim, que administrar o dinheiro cotidiano e decidir sobre o destino desse dinheiro são situações diferentes. E essa distinção se torna particularmente importante quando a mulher começa a empreender e precisa tomar decisões financeiras relacionadas ao próprio negócio.
Como organizar o dinheiro quando você empreende
Separar as finanças pessoais das finanças da empresa é uma das dificuldades que Elaine encontra entre mulheres empreendedoras. Ela relata o caso de uma empresária que já estava há quatro anos no mercado e atendia outras empresas, mas ainda misturava o dinheiro pessoal com o da empresa e não tinha estabelecido um pró-labore.
A orientação de separar pessoa física e pessoa jurídica pode parecer simples. Colocá-la em prática depende da realidade de cada negócio.
“Uma empreendedora que ela está vendendo ali na rua, por exemplo, ela vende o bolo do pote na rua, é diferente de uma empreendedora que ela tem dez funcionários dentro de uma indústria.”
Essa diferença é importante porque nem todas as empreendedoras conseguem retirar uma parte do faturamento e manter outra dentro da empresa da mesma maneira. Há mulheres que dependem daquele dinheiro para sustentar a casa, enquanto outras já possuem uma estrutura diferente.
Por isso, Elaine procura entender primeiro o momento vivido pela empreendedora. A partir desse diagnóstico, é possível pensar em mudanças que sejam aplicáveis àquela realidade, em vez de simplesmente entregar uma recomendação que dificilmente será seguida.
“Eu posso dar um método maravilhoso para ela, mas se não se aplica à realidade dela, eu posso dar a melhor ferramenta, mas se ela não consegue aplicar, então não adianta.”
Essa preocupação com o que cada pessoa efetivamente consegue incorporar à rotina também está na base do trabalho de Elaine com terapia financeira.
Nossa relação com o dinheiro começa muito antes da vida adulta
Para compreender determinados comportamentos financeiros, Elaine procura conhecer a história da pessoa, inclusive suas primeiras memórias relacionadas ao dinheiro. Isso não significa necessariamente lembrar da primeira vez que ganhou ou gastou alguma quantia.
Uma criança pode construir sua percepção observando o que acontece ao redor. Elaine dá o exemplo de alguém que cresceu vendo os adultos receberem dinheiro e imediatamente demonstrarem preocupação porque todo aquele valor seria usado para pagar contas.
“Depende muito da simbologia que aquele dinheiro veio pra pessoa. Então, qual foi a simbologia que ela deu praquilo, o significado.”
A partir dessas experiências, vão sendo formadas crenças e comportamentos que podem continuar presentes na vida adulta. Elaine utiliza um mapeamento psicofinanceiro para identificar essas questões e, depois, construir um plano financeiro adequado à situação atual da pessoa.
O planejamento também não é definitivo. Mudanças de emprego, renda, cidade ou configuração familiar podem exigir novas adaptações. Da mesma forma, mudar um comportamento financeiro leva tempo. “Um hábito não é uma coisa que você muda da noite pro dia”, lembra Elaine.
É justamente essa compreensão do comportamento que ajuda a ampliar a discussão sobre dinheiro para além da necessidade de economizar.
Mulheres também podem querer ganhar mais
Elaine observa que muitas mulheres aprenderam a administrar bem recursos limitados. É a ideia de “fazer muito com pouco”, frequentemente associada à capacidade feminina de organizar o orçamento da família.
Mas o que acontece quando uma mulher deixa de pensar apenas em administrar o que possui e começa a querer ganhar mais?
“Muitas vezes a mulher é vista, quando ela chega nesse momento que ela quer um pouco mais, ela é vista como ambiciosa, e essa ambiciosa, muitas vezes, é levada para aquele lado negativo.”
Para Elaine, querer aumentar a renda e construir riqueza não deveria ser confundido com ganância. “Ambição, sim, você querer mais é justo, e você trabalhar por aquilo também é justo.”
Ganhar mais também exige aprender a lidar com esse dinheiro. Elaine observa que, sem organização, uma pessoa pode aumentar a renda e aumentar os gastos na mesma proporção. Por isso, além de buscar novas formas de ganhar dinheiro, é preciso pensar no que será feito com os recursos que chegam.
Ter uma reserva é parte dessa organização. “Se a gente tem o dinheiro de reserva a gente pode ali, de certa forma, ficar um pouco mais tranquila”, explica Elaine. Essa reserva também pode permitir que uma oportunidade de investimento seja avaliada quando aparece.
A fala de Elaine começa com uma pergunta aparentemente simples sobre quanto dinheiro entra e quanto sai, mas percorre questões que ajudam a entender por que essa conta nem sempre é fácil de fazer. Nossa história, os comportamentos que aprendemos, a autonomia para decidir e a realidade em que vivemos interferem na maneira como lidamos com as finanças.
Para as mulheres, há ainda uma mudança importante nessa relação: aprender a cuidar do que já existe não precisa significar permanecer apenas no lugar de quem consegue “fazer muito com pouco”. Como coloca Elaine, querer mais também pode ser justo.
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