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    Falta de desejo feminino: por que muitas mulheres não sentem vontade de fazer sexo

    Stefanie Schmitt, Thalita Cesario
    5 Jun 2024
    6 min de leitura

    Entender como você aprendeu a desejar pode mudar completamente sua relação com o prazer


    A falta de desejo sexual feminino costuma aparecer como um problema individual. Muitas mulheres chegam a essa conclusão sozinhas, acreditando que algo está errado com elas, com o corpo ou com o relacionamento. Mas, na maioria das vezes, essa dificuldade não começa na vida adulta. Ela começa muito antes, na forma como o desejo foi apresentado, ou melhor, silenciado.


    Desde cedo, muitas mulheres aprendem que desejar não é adequado. Que é preciso se comportar, se conter, não falar sobre o assunto. Ao mesmo tempo, crescem sendo ensinadas a serem desejáveis. Essa contradição não é pequena e, com o tempo, se transforma em confusão, distância do próprio corpo e dificuldade de sentir vontade.


    Por que é tão comum não sentir desejo


    Quando a falta de libido aparece, é comum que a mulher busque soluções rápidas. Produtos, técnicas, performance. Mas essa busca costuma partir de um lugar equivocado.


    Como explica a sexóloga Thalita Cesario, muitas mulheres chegam ao consultório dizendo: "Ah, eu não tenho libido. A culpa é minha. Meu relacionamento vai acabar". E, a partir disso, tentam resolver a situação focando no outro, tentando agradar, performar ou corresponder a uma expectativa.


    O problema é que o desejo não nasce da obrigação. Ele não aparece quando a relação com o próprio prazer não existe.


    "Como é que você quer ter desejo se você não aprendeu a desejar?"


    Essa pergunta aponta para algo mais profundo do que a própria relação sexual. Ela fala sobre educação, cultura e sobre a ausência de repertório emocional e corporal.


    O que aprendemos sobre desejo ao longo da vida


    O desejo feminino não é apenas biológico. Ele é construído a partir das experiências, das permissões e das narrativas que cercam o corpo da mulher.


    Muitas crescem ouvindo que tocar o próprio corpo é errado, que falar sobre sexo é inadequado, que demonstrar interesse é algo que pode gerar julgamento. Ao mesmo tempo, absorvem referências de relações em que o sofrimento é romantizado e o prazer feminino não é prioridade.


    Essa combinação faz com que o desejo não se desenvolva. Não porque ele não existe, mas porque não há espaço para ele aparecer.


    "A mulher não aprendeu a desejar, ela também não aprendeu e não teve permissão pra falar sobre sexo."


    Sem linguagem, sem referência e sem autorização interna, o desejo fica distante. E, quando ele não é vivido, o corpo deixa de reconhecê-lo como algo importante.


    O impacto da falta de prazer na libido


    Existe uma lógica simples que ajuda a entender por que o desejo diminui com o tempo. O cérebro responde ao que traz recompensa.


    Se a experiência sexual não gera prazer, conexão ou satisfação, não há motivo para repetir. O corpo aprende que aquilo não vale o esforço.


    "Pra que você vai gastar energia com algo que não te dá recompensa?"


    Essa lógica aparece em muitos relatos. Mulheres que no início da relação até se envolvem mais, mas que, com o tempo, se afastam. Não por falta de interesse na relação em si, mas porque não existe uma experiência de prazer consistente que sustente o desejo.


    Quando o sexo vira obrigação ou performance


    Outro ponto importante é a forma como o sexo é colocado dentro das relações. Muitas mulheres entram nesse espaço com a sensação de que precisam corresponder, entregar ou manter algo.


    Isso aparece em comportamentos como buscar técnicas, aprender formas de agradar ou tentar se encaixar em expectativas externas. O foco sai completamente do próprio desejo.


    "É sempre muito direcionado à outra pessoa."


    Quando o sexo passa a ser uma tarefa ou uma performance, o prazer deixa de ser um elemento central. E, sem prazer, o desejo não se sustenta.


    Autoconhecimento e desejo: o que realmente muda


    Falar sobre desejo feminino passa necessariamente pelo autoconhecimento. Não como um conceito abstrato, mas como uma prática real de entender o próprio corpo, as próprias respostas e o que faz sentido individualmente. O acompanhamento especializado pode ajudar nesse processo.


    Isso envolve perceber o que gera excitação, o que traz desconforto, o que desperta curiosidade. E, principalmente, reconhecer que o prazer não é algo que vem de fora.


    "A única obrigação que tem aqui é você aprender como você gosta."


    Sem esse movimento, é comum que o prazer seja terceirizado. Seja para o parceiro, seja para ferramentas externas. E isso cria uma distância ainda maior entre a mulher e a própria experiência.


    Por que produtos e soluções rápidas não resolvem


    Nos últimos anos, o tema da sexualidade ganhou mais espaço. Junto com isso, surgiu também uma indústria que oferece soluções rápidas para questões complexas.


    Embora esses recursos possam ter seu lugar, eles não substituem o entendimento do próprio corpo.


    "Masturbação e autoprazer são diferentes de interação sexual."


    Sem contexto, sem presença e sem conexão, qualquer recurso tende a gerar frustração. O problema não está no instrumento, mas na expectativa de que ele resolva algo que começa antes.


    Desejo também é construção emocional


    O desejo não está apenas no corpo. Ele também passa pela forma como a mulher se percebe, se permite e se relaciona com o prazer.


    Existe medo de julgamento, receio de ser mal interpretada e uma ideia ainda muito presente de que uma mulher que fala sobre sexo pode ser vista de forma negativa.


    "Foi tirado da gente esse direito, essa permissão de sentir."


    Quando essa permissão não existe, o desejo não desaparece, mas fica reprimido. E, com o tempo, se torna mais difícil de acessar.


    Qual é o lugar do sexo na vida da mulher


    Uma pergunta que raramente é feita, mas que muda tudo, é simples: por que você faz sexo?


    A resposta não precisa ser única. Pode estar ligada ao prazer, à conexão, ao afeto. Mas, quando essa resposta não existe, o sexo perde sentido e se torna dispensável.


    "Em que momento que a gente foi ensinada sobre a importância do sexo pra gente?"


    Sem entender o próprio motivo, é comum que o sexo seja colocado em segundo plano, especialmente quando outras áreas da vida ganham prioridade.


    Entre silêncio e escolha


    Falar sobre desejo ainda é desconfortável para muitas mulheres. Não porque seja um tema distante, mas porque ele toca em aprendizados antigos, crenças e inseguranças.


    Ao mesmo tempo, quando esse assunto começa a ser olhado com mais honestidade, ele deixa de ser um problema individual e passa a ser um caminho de entendimento.


    O desejo não desaparece sem motivo. Ele responde ao que foi vivido, ao que foi aprendido e ao que ainda não foi permitido.


    E, muitas vezes, não se trata de recuperar algo perdido, mas de construir algo que nunca teve espaço para existir.


    Continue lendo


    → Dor na relação sexual: por que não é normal e como tratar


    → Como superar traumas em relacionamentos e voltar a se abrir para o amor

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