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    O que fazer com a maternidade indesejada?

    Stefanie Schmitt, Fernanda Massatelli
    14 Mai 2025
    6 min

    Maternidade indesejada: o que fazer quando a gravidez não era um plano — e por que essa conversa precisa existir


    A maternidade ainda é tratada como um caminho natural na vida das mulheres. Um destino quase inevitável, cercado por expectativas de realização, amor incondicional e felicidade.


    Mas essa narrativa não contempla todas as experiências.


    A maternidade indesejada existe, atravessa a vida de muitas mulheres e, apesar disso, ainda é pouco discutida. Quando aparece, costuma vir acompanhada de culpa, silêncio e julgamento.


    Neste bate-papo da Olhi sobre o tema, a psicóloga Fernanda Massatelli, que atua há anos com mulheres e mães, trouxe um ponto central para começar essa conversa: é preciso questionar o que aprendemos sobre o que é ser mãe.


    "O primeiro passo é entender que essa ideia de amor materno e instinto materno é uma construção social", explica Fernanda Massatelli.


    Nem toda mulher deseja ser mãe — e isso não é um problema


    Existe uma expectativa muito forte de que toda mulher, em algum momento, desejará a maternidade. E que, ao se tornar mãe, desenvolverá naturalmente um vínculo profundo com o filho.


    Mas essa ideia não é universal.


    Fernanda explica que, ao longo da história, esse vínculo não foi sempre entendido da mesma forma, e que o que hoje consideramos natural é, na verdade, resultado de construções culturais e sociais.


    "Não dá para defender que isso é inato, que toda mulher vai desejar ser mãe ou se realizar na maternidade", afirma.


    Isso não invalida o amor de quem deseja e vive a maternidade de forma positiva. Mas abre espaço para reconhecer que essa não é a única experiência possível.


    Quando a gravidez não é planejada


    A maternidade indesejada pode começar de diferentes formas. Em muitos casos, ela surge a partir de uma gravidez não planejada.


    Mesmo com acesso à informação e a métodos contraceptivos, imprevistos acontecem.


    "Os métodos contraceptivos falham, ainda que usados corretamente, e as pessoas não devem ser penalizadas por isso", explica Fernanda Massatelli.


    Além disso, existem contextos em que a gravidez acontece em meio a outras prioridades: carreira, estudos, estabilidade financeira ou mudanças de vida.


    Nesses casos, o impacto não é apenas emocional — ele reorganiza completamente a trajetória da mulher.


    Quando o desejo muda


    Nem sempre a maternidade indesejada está ligada à ausência total de desejo.


    Existem situações em que a ideia de ser mãe fazia sentido em outro momento, mas deixa de fazer quando a realidade muda.


    "Muitas vezes a pessoa desejava, mas quando acontece surge o medo: será que eu dou conta?", explica Fernanda Massatelli.


    Esse deslocamento é mais comum do que parece, mas raramente é discutido.


    O mito do amor instantâneo


    Um dos elementos que mais contribuem para o sofrimento das mulheres é a ideia de que o amor materno é automático.


    Que ele nasce junto com o filho, sem dúvidas ou conflitos.


    Mas isso não corresponde à realidade de muitas experiências.


    "O amor vai sendo construído, não é necessariamente espontâneo ou incondicional", afirma Fernanda Massatelli.


    Mesmo em maternidades desejadas, sentimentos como medo, insegurança e ambivalência fazem parte do processo.


    Quando a maternidade não foi desejada, esses sentimentos podem ser ainda mais complexos.


    O silêncio que faz a mulher se sentir sozinha


    A dificuldade de falar sobre maternidade indesejada cria um efeito profundo.


    Sem referências, muitas mulheres acreditam que são as únicas a sentir dúvidas, desconforto ou falta de conexão.


    "Como não se fala sobre isso, muitas mulheres acham que são as únicas que não sentem esse amor incondicional", diz Fernanda Massatelli.


    Esse silêncio transforma uma experiência coletiva em uma vivência solitária.


    E, muitas vezes, carregada de culpa.


    O que fazer quando a maternidade não é um desejo


    Diante de uma gravidez não planejada ou de uma maternidade indesejada, não existe uma única resposta.


    Existem possibilidades — e todas exigem reflexão, informação e apoio.


    No Brasil, a interrupção da gestação é legal em três situações: quando há risco de vida para a mulher, quando a gravidez é resultado de violência e em casos de anencefalia.


    Mas o acesso a esse direito ainda é limitado.


    "Na prática, existem muitas dificuldades para acessar esses serviços, mesmo quando a lei garante esse direito", explica Fernanda Massatelli.


    Além disso, existe a possibilidade de entrega voluntária para adoção, e também a escolha de seguir com a gestação e construir a maternidade ao longo do tempo.


    Nenhuma dessas decisões é simples.


    A importância de perguntar, antes de opinar


    Um dos momentos mais delicados acontece logo após a descoberta da gravidez.


    E, muitas vezes, as reações ao redor são automáticas: comemorar ou lamentar.


    Mas nenhuma dessas respostas considera o que realmente importa.


    "A primeira reação deve ser sempre: como você está se sentindo com isso?", orienta Fernanda Massatelli.


    Essa pergunta abre espaço para escuta, acolhimento e construção de decisão.


    Saúde mental e maternidade


    A maternidade indesejada não afeta apenas o momento da decisão.


    Ela pode impactar profundamente a saúde emocional da mulher ao longo do tempo.


    Segundo Fernanda, estudos indicam que o impacto psicológico de manter uma gestação indesejada pode ser significativo.


    "Gestações e maternidades não desejadas trazem um impacto muito maior para a saúde mental do que a interrupção da gestação", afirma Fernanda Massatelli.


    Isso reforça a importância de olhar para esse tema com responsabilidade e cuidado.


    Nenhuma mulher deveria passar por isso sozinha


    Independentemente do caminho escolhido, existe algo fundamental: apoio.


    Seja para tomar uma decisão, seja para lidar com a maternidade no dia a dia, o acompanhamento profissional pode fazer diferença.


    "É possível buscar apoio profissional quando estiver difícil, seja para decidir ou para lidar com a maternidade", explica Fernanda Massatelli.


    Falar sobre isso também é cuidado


    Trazer a maternidade indesejada para o debate não é provocação.


    É reconhecer que existem diferentes formas de viver — e de não viver — a maternidade.


    É permitir que mais mulheres se reconheçam em suas próprias experiências.


    E, principalmente, é reforçar que escolha também é cuidado.


    "Ninguém é um monstro por não sentir esse amor incondicional ou por sentir falta de outra vida. Isso faz parte", diz Fernanda Massatelli.


    Quando essa conversa se torna possível, algo importante acontece: a maternidade deixa de ser uma obrigação e passa a ser, de fato, uma escolha.


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