Como fazer a maternidade não acabar com a sexualidade?
Maternidade e sexualidade: como manter o prazer vivo (sem culpa e sem pressão)
Domingo é Dia das Mães — e talvez por isso pareça "provocativo" falar de sexualidade agora. Mas a verdade é simples: sexualidade é saúde. E, para muitas mulheres, a maternidade mexe (muito) com o corpo, a autoestima, a rotina, a energia e a forma de se relacionar.
Neste bate-papo da Olhi, a Aline (sexóloga e profissional disponível no app) trouxe uma visão prática e acolhedora sobre como a maternidade pode impactar a sexualidade — e, principalmente, como recuperar o caminho de volta para o prazer.
Por que a maternidade costuma impactar a sexualidade?
Aline explica que, quando a mulher se torna mãe, ela frequentemente "assume a versão mãe" e, sem perceber, vai apagando outras versões de si: a mulher sensual, a parceira, a profissional, a pessoa que sente desejo.
E não é por falta de amor, nem por "frescura". É por uma combinação real de fatores:
- culpa ("eu deveria estar focada só no bebê / na casa / em todo mundo")
- tabus e crenças sobre o corpo materno
- sobrecarga mental e física
- mudanças no corpo e na identidade
- queda de prioridade da intimidade (que vai ficando "para depois")
Aline nomeia uma crença que muitas de nós já ouvimos (ou sentimos por dentro):
"Quando nasce uma mãe, morre uma mulher."
E a proposta dela é justamente o contrário: uma coisa não anula a outra.
"Sexualidade não é só sexo" — e isso muda tudo
Uma virada importante do papo é esta: muitas pessoas pensam que sexualidade = relação sexual. E não é.
Aline lembra que sexualidade tem a ver com:
- autoestima e identidade
- comunicação e vínculo
- prazer, sensações e presença no corpo
- emoções e equilíbrio emocional
- energia vital ("libido" como energia de vida)
- criatividade, disposição e até performance no trabalho
Ou seja: cuidar da sexualidade não é "luxo". É base de bem-estar — especialmente para quem vive a intensidade da maternidade.
O conceito de "microêxtases": prazer em pequenas doses, todos os dias
Uma das ideias mais marcantes da Aline é o que ela chama de microêxtases: pequenos rituais de bem-estar íntimo e reconexão com o corpo no cotidiano.
Ela explica assim: o orgasmo é um ápice (um êxtase). Mas, no dia a dia, dá para criar micropicos de prazer que reacendem o corpo — e isso, aos poucos, devolve o caminho para o desejo.
E o segredo não é "fazer mais coisas". É fazer o que você já faz com presença e intenção.
Exemplo prático (muito simples e muito poderoso)
Passar hidratante pode ser automático… ou pode virar reconexão.
- sinta a pele
- perceba o aroma
- respire com calma
- massageie com atenção (inclusive o ventre)
Aline chama o ventre de um "portal importante" — e lembra que, depois da gestação, muitas mulheres param de tocar a barriga: por estranhamento, cicatriz, mudanças no corpo, peso, desconforto. Voltar a tocar com cuidado é um gesto de retorno.
Microêxtase é isso: você volta para o corpo — e o corpo volta a sentir.
"Estou desconectada há anos. Como recomeçar?"
Aline fala algo essencial: para muitas mulheres, o corpo fica adormecido. Por isso, começar "lá do fim" (ex.: já pensando em desempenho sexual) costuma gerar pressão e frustração.
O começo real é outro:
1) Se autorizar
Muitas mulheres não se dão permissão de sentir prazer. Acham supérfluo.
Aline é direta: não é luxo, é direito.
2) Treinar presença em coisas pequenas
Porque, se a vida está no automático, a intimidade também vai estar.
- tomar banho sentindo a água e a pele
- tomar café prestando atenção no aroma, temperatura e sabor
- comer algo gostoso com calma, presente
Isso "treina" corpo e mente para sentir — e sentir prazer.
3) Reconectar com memórias boas
Ela sugere lembrar, com gentileza, de momentos em que foi bom e gostoso. Não para comparar, mas para lembrar o corpo: "eu sei voltar."
"Nunca senti prazer / nunca tive orgasmo": e agora?
Aline traz um ponto importante: às vezes a mulher acha que nunca teve orgasmo porque tem uma referência irreal, baseada em vídeo, relato ou expectativa.
Por isso, no trabalho com uma sexóloga, uma pergunta-chave é:
"O que é prazer para você?"
"O que é orgasmo para você?"
A partir daí, a jornada começa pelo mesmo princípio: presença, permissão e reconexão com o corpo — sem cobrança.
E um lembrete essencial:
sexualidade não é só penetração. E sexo não é só um tipo de roteiro.
E quando a maternidade afeta a atração pelo parceiro (ou parceira)?
Sim, isso aparece muito: "Depois que virei mãe, não sinto mais atração".
Aline sugere olhar para algo bem concreto: admiração, parceria e sobrecarga.
Muitas vezes, a perda de desejo está ligada a:
- comunicação ruim
- ressentimento acumulado
- sensação de estar "sozinha" na carga mental
- falta de cuidado, atenção e parceria no cotidiano
Ela usa uma metáfora para explicar o desejo feminino:
- a mulher tende a ser mais como fogão a lenha (precisa de contexto, tempo e elementos)
- o homem tende a ser mais como micro-ondas (liga mais rápido)
A solução não é "forçar vontade". É tratar a raiz: rotina, vínculo, comunicação e divisão de carga.
Como funciona um atendimento com sexóloga?
Aline explica que o atendimento é um espaço de:
- acolhimento e reserva total
- identificação de "bloqueios invisíveis" (muitas vezes a mulher nem percebe)
- trabalho com comunicação e relacionamento
- abordagens mais completas (neurociência, terapias integrativas, reprogramações emocionais, rituais)
E pode envolver acompanhamento entre sessões (ela comentou inclusive o uso de suporte 24h com uma ferramenta/assistente, como apoio no processo).
O principal: não é só "conversa sobre sexo". É um cuidado amplo sobre bem-estar, corpo, emoções e vínculo.
Para as mães (e futuras mães): a mensagem final
Se você está entrando na maternidade, Aline deixa um recado claro:
Não se desconecte da sua versão mulher.
Porque, quando você cuida da sua intimidade e do seu bem-estar, você ganha mais recursos emocionais para sustentar todas as outras versões — inclusive a maternidade.
E a dica mais prática para começar hoje:
pegue recortes do seu dia e esteja presente neles.
Sem adicionar tarefas. Sem virar mais uma cobrança. Apenas trazendo você de volta para você.
Quer ajuda para o seu caso, do seu jeito?
Se esse tema bateu em algum ponto sensível — falta de desejo, dor, culpa, vergonha, desconexão, dificuldade de conversar com o parceiro(a) — um atendimento individual pode ajudar muito, porque sempre existe uma especificidade.
A Aline atende online e está disponível no app da Olhi. Se você quiser, pode agendar e conversar com segurança e acolhimento.
Continue lendo
→ Sexualidade após a maternidade: por que a libido diminui no puerpério
→ Falta de desejo feminino: por que muitas mulheres não sentem vontade
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