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    O que muda quando os pais também fazem terapia?

    Stefanie Schmitt, Marcia Bulbow
    27 Mai 2026
    6 min de leitura

    O cuidado com a saúde mental dos pais fortalece o diálogo, reduz a culpa e cria um ambiente mais saudável para o desenvolvimento dos filhos.


    Cada vez mais adolescentes procuram terapia por iniciativa própria. Eles falam sobre saúde mental com mais naturalidade, reconhecem quando precisam de ajuda e, muitas vezes, são os primeiros a pedir aos pais para conversar com um psicólogo. Essa mudança geracional é positiva, mas também traz um desafio: o que acontece quando apenas o adolescente muda, enquanto a dinâmica da família continua a mesma?


    Foi justamente sobre essa questão que conversamos com a psicóloga Marcia Bulbow. Ao longo da conversa, ela explica que a terapia nunca transforma apenas quem está em atendimento. Quando um filho inicia um processo de autoconhecimento, toda a família acaba sendo impactada. E é por isso que olhar para a saúde mental dos pais também faz diferença.


    Quando um adolescente muda, a família também precisa acompanhar


    Segundo Marcia Bulbow, um dos movimentos mais interessantes dos últimos anos é perceber que muitos adolescentes já entendem a importância de pedir ajuda.


    "Se eu não tô dando conta, eu preciso de ajuda."


    Para a psicóloga, isso mostra uma geração mais aberta para falar sobre emoções e mais disposta a buscar apoio quando percebe dificuldades para lidar com elas. Mas esse processo naturalmente provoca mudanças.


    Ao longo da terapia, é comum que o adolescente passe a compreender melhor seus sentimentos, estabeleça novos limites, mude alguns comportamentos e desenvolva uma forma diferente de se relacionar com as pessoas. Essas transformações não acontecem isoladamente. Elas chegam até a família.


    Como explica Márcia, "aquele que busca atendimento vai impactar na família toda". Os pais passam a conviver com um filho que está aprendendo a expressar emoções, comunicar necessidades e fazer escolhas com mais autonomia. Se eles não estiverem preparados para acolher essas mudanças, surgem conflitos que muitas vezes não têm relação com a terapia em si, mas com a dificuldade de adaptar a dinâmica familiar.


    Cuidar de si não significa deixar de cuidar dos filhos


    Durante a conversa, um tema aparece repetidamente: a tendência de muitos pais, especialmente das mães, colocarem o próprio bem-estar sempre em último lugar.


    Márcia conta que escuta com frequência frases como: "o tempo que eu estou cuidando de mim, eu deixo de cuidar dele". A sensação de culpa faz com que muitas mulheres abandonem completamente o autocuidado, acreditando que qualquer tempo dedicado a si mesmas é um tempo retirado dos filhos.


    A psicóloga usa uma metáfora bastante conhecida para explicar por que esse pensamento precisa ser revisto.


    "Em caso de descompressão, máscaras cairão. Ao pegar a máscara, primeiro coloque em você e depois ajude quem estiver por perto."


    Assim como acontece em um avião, o cuidado consigo mesmo não é egoísmo. É condição para conseguir cuidar de outra pessoa.


    Quando alguém está emocionalmente exausto, sobrecarregado ou sem espaço para olhar para as próprias necessidades, também perde parte da capacidade de acolher quem está ao seu lado. Como resume Márcia, "eu, estando bem cuidada, tenho melhor condição de cuidar do outro".


    A terapia também ajuda os pais a deixarem a culpa de lado


    Outro aspecto importante do processo terapêutico é diminuir o peso da culpa que muitos pais carregam quando um filho precisa de acompanhamento psicológico.


    É comum surgir a sensação de que qualquer dificuldade emocional da criança ou do adolescente seja consequência de um erro na criação. Márcia acredita que esse é um dos primeiros pontos que precisam ser trabalhados.


    Ela explica que a terapia ajuda a "desmistificar essa ideia de que eu sou culpado".


    Ao mesmo tempo, permite que os pais revejam outro comportamento bastante comum: a expectativa de que o filho corresponda exatamente aos sonhos que foram projetados para ele.


    Antes mesmo do nascimento, muitos pais imaginam profissões, caminhos e escolhas para os filhos. Mas, na prática, cada criança constrói sua própria identidade.


    "Ele tem ideias próprias, ele tem desejos próprios, ele é uma pessoa singular, única."


    Quando os pais também passam por um processo de autoconhecimento, fica mais fácil compreender essa individualidade. Aos poucos, diminui a expectativa de que o filho seja uma extensão de si mesmo e cresce a capacidade de acolher escolhas diferentes das imaginadas.


    O diálogo melhora quando existe presença de verdade


    Ao longo da conversa, Márcia faz uma observação que parece simples, mas revela muito sobre as relações familiares atuais.


    Ela comenta que hoje estamos "muito próximos de quem está longe e muito distantes de quem está perto".


    A tecnologia facilita a comunicação, mas não garante presença. Em muitas casas, pais e filhos passam o dia inteiro conectados sem realmente conversar. A consequência é que pequenas mudanças no comportamento acabam passando despercebidas.


    Para a psicóloga, o diálogo não depende apenas de perguntar como foi o dia. Depende de escutar com atenção.


    "Como é bom quando a gente tem diálogo com a escuta ativa, com a presença."


    Quando um adolescente percebe que será ouvido sem julgamentos, sente mais segurança para falar sobre medos, dúvidas e dificuldades. E isso faz diferença inclusive na identificação precoce de problemas emocionais.


    Segundo Márcia, quem conhece de perto o próprio filho consegue perceber mudanças antes que elas se tornem mais graves.


    "Se você conhece seu filho, você vai perceber se ele está mais quieto, mais fechado, mais reservado."


    Essa proximidade não significa invadir a privacidade. Significa construir uma relação em que exista abertura suficiente para conversar sobre interesses, amizades, rotina e sentimentos.


    A terapia não substitui o papel da família


    Um momento da conversa chama atenção para um equívoco que pode acontecer quando um filho inicia a terapia.


    Alguns pais acabam transferindo determinadas conversas para o consultório.


    "Você falou isso para a psicóloga?"


    Embora essa pergunta seja comum, Márcia lembra que a terapia acontece, normalmente, durante uma hora por semana. Todo o restante da vida acontece dentro da família, da escola e das relações do dia a dia.


    Por isso, o objetivo do acompanhamento psicológico não é substituir o diálogo em casa, mas fortalecer o adolescente para que ele consiga conversar diretamente com as pessoas envolvidas.


    Como explica a psicóloga, "ele falou para falar com você. Isso é com você."


    O terapeuta ajuda a desenvolver recursos para enfrentar situações difíceis, mas o espaço onde esses aprendizados serão vividos continua sendo a família.


    Tornar-se uma mãe "desnecessária"


    Talvez a frase mais marcante de toda a conversa seja também aquela que costuma causar maior estranhamento.


    Márcia diz que, na psicologia, existe uma expressão bastante forte:


    "Torne-se uma mãe desnecessária."


    Ela mesma reconhece que a frase pode assustar num primeiro momento. Mas o significado é exatamente o oposto do abandono.


    Tornar-se uma mãe "desnecessária" é criar um filho capaz de caminhar sozinho. É oferecer segurança suficiente para que ele desenvolva autonomia, enfrente desafios, erre, aprenda e saiba que pode voltar quando precisar.


    "Dar condições para esse filho bater asa, saber que ele pode voar, que ele tem força, coragem e possibilidade de enfrentamento."


    Esse processo também exige preparação dos pais. Afinal, acompanhar o crescimento de um filho significa aprender, aos poucos, a ocupar um lugar diferente na vida dele.


    No fim, talvez essa seja uma das maiores contribuições da terapia para toda a família: ajudar cada pessoa a compreender seu próprio papel, respeitar a individualidade do outro e construir relações mais saudáveis, baseadas em diálogo, presença e confiança.


    Se você quer iniciar esse cuidado, conheça profissionais da área de saúde mental prontos para caminhar com você e com a sua família.


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