Racismo afeta a saúde mental? Entenda como o racismo estrutural impacta o bem-estar
Violências invisíveis, autoestima e ansiedade: por que o sofrimento não é individual
A sensação de não pertencimento, o cansaço constante em determinados ambientes e a dúvida silenciosa sobre "o que tem de errado comigo" não surgem do nada. Para muitas pessoas negras, esses sentimentos fazem parte do cotidiano, mas nem sempre são reconhecidos como parte de um problema maior.
Quando a saúde mental é pensada de forma isolada, sem considerar o contexto em que a pessoa vive, parte importante da experiência fica de fora. É nesse ponto que o racismo deixa de ser apenas uma questão social e passa a ser também uma questão de cuidado.
Neste bate-papo da Olhi sobre o tema, a psicóloga Giovana Santos explica que "a gente está lidando com uma questão estrutural", e isso significa que os impactos não são pontuais, mas atravessam a forma como as pessoas se percebem, se relacionam e vivem.
Como o racismo estrutural impacta a saúde mental
O racismo não aparece apenas em situações explícitas. Ele está presente na forma como a sociedade se organiza, nas oportunidades que são distribuídas e nas experiências que se repetem ao longo da vida.
Giovana explica que uma escuta clínica racializada precisa considerar esse contexto. "Leva em consideração a sociedade em que estamos inseridos, levando em consideração que isso vai impactar na nossa saúde mental".
Isso muda o ponto de partida. O sofrimento deixa de ser visto apenas como algo individual e passa a ser compreendido dentro de uma realidade social.
Quando esse contexto não é considerado, existe o risco de interpretar como transtorno algo que, na verdade, é uma resposta a um ambiente desigual.
O que é uma escuta racializada na psicologia
Ao falar de clínica racializada, Giovana não está falando de um atendimento diferente apenas na técnica, mas na forma de compreender a pessoa.
"É uma escuta ética, política e humanizada", afirma.
Política, nesse caso, não significa partidária, mas consciente do contexto. Significa entender que a história, a desigualdade e o racismo estrutural fazem parte da experiência psíquica.
Isso também envolve questionar uma base tradicional da psicologia, construída a partir de referências europeias que nem sempre dialogam com a realidade brasileira.
"Essa clínica vem de um contexto europeu que não se aplica exatamente da mesma forma aqui no Brasil", explica.
Como identificar quando o sofrimento tem relação com o racismo
Nem sempre é simples perceber que o sofrimento está ligado ao racismo.
Giovana explica que algumas pessoas já chegam ao processo terapêutico com essa clareza, mas muitas não.
Nesses casos, o papel da psicologia não é apontar diretamente, mas mediar esse processo. "É importante fazer essa mediação para que a própria pessoa consiga identificar".
Esse caminho é importante porque permite que a pessoa desenvolva autonomia para reconhecer situações semelhantes no futuro.
A dificuldade de identificar também está relacionada ao silêncio em torno do tema. Quando não se fala sobre racismo de forma aberta, a tendência é que o sofrimento seja interpretado como algo pessoal.
Quais são as violências que muitas vezes passam despercebidas
Quando se fala em racismo, é comum pensar apenas em situações explícitas. Mas grande parte das violências acontece de forma mais sutil.
Giovana traz exemplos que ajudam a entender isso.
Uma abordagem policial violenta direcionada a homens negros é uma forma clara de racismo. Mas existem outras situações menos evidentes.
No ambiente de trabalho, por exemplo, uma mulher negra pode ocupar o mesmo cargo que uma mulher branca e, ainda assim, ser direcionada para tarefas mais pesadas.
"Entende-se que mulheres negras são fortes", explica.
Esse tipo de associação não é neutro. Ele carrega uma construção histórica que afeta diretamente a forma como essas mulheres são tratadas.
Além disso, existem violências ligadas à autoestima, que começam desde cedo. Crescer ouvindo que o cabelo é "ruim" ou que a beleza está associada a padrões brancos impacta a forma como a pessoa se percebe.
"Isso vai impactar a minha autoestima, a minha auto-percepção, meu senso de merecimento", afirma.
Como o racismo afeta a autoestima e o senso de merecimento
A repetição dessas experiências ao longo da vida não é neutra.
Giovana explica que muitas dessas mensagens acabam sendo internalizadas. Quando alguém cresce sendo comparado de forma negativa, isso passa a fazer parte da forma como ela se enxerga.
Essa internalização afeta não apenas a autoestima, mas também a forma como a pessoa se coloca no mundo.
O senso de merecimento pode ser diretamente impactado. A pessoa pode passar a acreditar que não merece determinados espaços, relações ou oportunidades.
E esse processo nem sempre é consciente.
Por que a ansiedade aparece com frequência
Entre os sofrimentos mais recorrentes, a ansiedade aparece de forma significativa.
Giovana explica que ela pode estar ligada a diferentes fatores, mas um deles é a necessidade constante de vigilância.
"Ter que estar vigilante o tempo todo, com medo de sofrer racismo", explica.
Esse estado de alerta pode aparecer em situações simples, como entrar em um ambiente novo.
Ela traz um exemplo muito concreto. "A primeira coisa que muitas pessoas negras fazem quando chegam num ambiente é contar quantas pessoas negras estão lá".
Quanto mais pessoas negras, maior a sensação de segurança. Quando a pessoa é a única, o nível de alerta aumenta.
Essa vigilância constante gera desgaste e impacta diretamente a saúde mental.
O impacto do racismo nas relações afetivas
Outro ponto importante está nas relações afetivas.
Giovana explica que mulheres negras muitas vezes são colocadas em um lugar de cuidado, mas não de receber cuidado.
"São colocadas nesse campo de pessoas que precisam cuidar o tempo todo".
Além disso, existe um histórico de sexualização que afeta a forma como essas mulheres são percebidas.
Ela aponta que mulheres negras são frequentemente associadas ao desejo sexual, mas não ao afeto. "São colocadas no campo das relações sexuais, mas não para um casamento, por exemplo".
Esse tipo de experiência impacta diretamente a forma como a pessoa se vê dentro das relações.
Com o tempo, pode surgir a sensação de não ser merecedora de afeto, o que precisa ser trabalhado.
Como a terapia pode ajudar nesse processo
Dentro da clínica, o trabalho não é eliminar o racismo, mas ajudar a pessoa a compreender e lidar com esses impactos.
Giovana explica que a terapia ajuda a construir essa consciência. "Ajuda as pessoas a compreenderem de onde vem esse sofrimento".
A partir disso, é possível desenvolver novas formas de se relacionar consigo mesma e com o mundo.
Ela traz um exemplo importante ao falar sobre a ideia de força. Muitas mulheres negras cresceram sendo colocadas nesse lugar, como se não pudessem demonstrar vulnerabilidade.
A terapia pode ajudar a desconstruir isso. "Perceber que eu não preciso ser forte o tempo todo".
Esse tipo de percepção abre espaço para novas formas de cuidado.
Por que acolhimento é o ponto de partida
Ao final, Giovana traz uma mensagem que resume o cuidado em saúde mental.
"Todo mundo precisa de acolhimento".
Para pessoas negras, isso ganha um peso ainda maior. Em muitos casos, essas pessoas estão acostumadas a acolher, mas não a serem acolhidas.
Reconhecer a necessidade de cuidado, de afeto e de suporte é parte fundamental do processo.
E esse reconhecimento não é simples. Ele exige sair de um lugar que foi construído ao longo de uma vida inteira.
Entre o que é individual e o que é estrutural
Nem todo sofrimento pode ser explicado apenas pela história individual.
Quando o contexto social entra na conversa, novas camadas aparecem.
O racismo não desaparece quando é nomeado. Mas, quando ele deixa de ser invisível, muda também a forma como a pessoa se posiciona diante dele.
E, a partir daí, o cuidado deixa de ser apenas sobre se adaptar e passa a ser também sobre se reconhecer.
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→ Saúde mental LGBTQIAPN+: como o preconceito impacta o bem-estar
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