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    Saúde mental LGBTQIAPN+: como o preconceito impacta o bem-estar e quando buscar ajuda

    Stefanie Schmitt, Gabriele dos Santos Rocha
    24 Abr 2024
    6 min de leitura

    Família, religião e sociedade: por que o sofrimento não é individual e como reconhecer sinais de cuidado


    A dúvida sobre a própria identidade, o medo de não ser aceito e o esforço constante para se encaixar não aparecem isoladamente. Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, essas experiências fazem parte do processo de crescer em uma sociedade que ainda não acolhe plenamente as diferenças.


    E isso não começa fora. Muitas vezes, começa dentro de casa.


    Neste bate-papo da Olhi sobre o tema, a psicóloga Gabriele dos Santos Rocha explica que a forma como a sociedade se organiza influencia diretamente a saúde mental. "A nossa sociedade, ela começa dentro da nossa própria família", aponta, ao destacar que é nesse primeiro espaço que surgem algumas das dores mais profundas.


    Entender esse impacto é essencial para deixar de tratar esse sofrimento como algo individual e começar a olhar para o contexto em que ele se forma.


    Por que a família é um dos principais impactos na saúde mental LGBTQIAPN+


    Ao falar de saúde mental nessa população, Gabriele chama atenção para um ponto recorrente nos atendimentos: a dor que vem da rejeição familiar.


    Essa rejeição nem sempre é explícita. Ela pode aparecer de forma indireta, em dúvidas, negações ou tentativas de corrigir aquilo que foge do esperado.


    "Às vezes você nem tem certeza do que você é. Você só nasce achando que está diferente", explica.


    A partir disso, surgem questionamentos que não partem da própria pessoa, mas do ambiente ao redor. A ideia de que há algo errado começa a ser construída.


    Gabriele aponta que isso tem relação com uma expectativa anterior à própria existência da pessoa. "Tem toda uma idealização", explica, ao falar sobre como pais e familiares criam imagens do que aquele filho deveria ser.


    Quando essa expectativa não se confirma, surge um processo de luto. Não pela pessoa real, mas pela versão idealizada que foi criada.


    Como a religião influencia a forma como a pessoa se percebe


    Outro elemento importante é a religião.


    Gabriele explica que muitas pessoas crescem dentro de uma estrutura em que apenas uma forma de viver é considerada válida. "A gente é levado a crer que o que é certo é o casamento heterossexual".


    Esse tipo de construção pode gerar conflitos internos profundos.


    A pessoa começa a se questionar não apenas sobre quem é, mas sobre o que isso significa dentro do sistema de crenças que aprendeu.


    Dentro da terapia, o papel não é julgar essas crenças, mas entender como elas impactam a vida da pessoa. "O que isso influencia na sua vida?", é uma das perguntas que guiam esse processo.


    Quando o preconceito vira sofrimento físico e emocional


    O impacto do preconceito não fica apenas no campo emocional.


    Gabriele explica que esses conflitos podem se manifestar no corpo. "Esses conflitos dentro da psique humana geram dor, geram doenças psicossomáticas".


    Isso pode aparecer como ansiedade, desânimo, dificuldade de concentração ou até sintomas físicos, como gastrite, enxaqueca e queda de cabelo.


    Em muitos casos, a pessoa não associa esses sintomas ao contexto em que está vivendo.


    Mas, na prática, o corpo está respondendo a um conflito interno que ainda não foi elaborado.


    Por que a comparação com o "normal" gera mais dor


    Um dos pontos mais delicados da conversa é a ideia de normalidade.


    Gabriele reforça que esse conceito é construído socialmente e não reflete a diversidade real das pessoas.


    Quando alguém tenta se encaixar em um padrão que não corresponde ao que sente, o resultado costuma ser sofrimento.


    "A própria palavra encaixar… colocar dentro de uma caixa… não está saudável", afirma.


    Essa tentativa de se moldar às expectativas dos outros pode gerar uma desconexão profunda consigo mesmo.


    E, muitas vezes, a motivação para isso não é simples. Está ligada ao desejo de ser aceito, de ser amado e de pertencer.


    O que significa "sair do armário" e por que não é um caminho único


    A ideia de "sair do armário" é frequentemente tratada como um passo obrigatório, mas Gabriele propõe um olhar diferente.


    "Você não tem que fazer nada", afirma.


    Para algumas pessoas, compartilhar sua identidade com a família ou com a sociedade pode ser um caminho importante. Para outras, isso pode gerar mais dor do que acolhimento.


    Dentro da psicologia, o foco não está em seguir um padrão, mas em encontrar o que gera menos sofrimento.


    "Dentro da psicologia, a gente trabalha com o que causa menos dor", explica.


    Isso significa respeitar o tempo e o contexto de cada pessoa.


    Como acontece o processo de autoaceitação


    A autoaceitação não é um evento único. Ela é um processo.


    Gabriele descreve esse caminho como a capacidade de se reconhecer sem precisar se encaixar em todas as definições. "Você olha no espelho e… eu sou diferente, e está tudo bem".


    Esse movimento envolve sair da comparação e construir uma relação mais direta com quem se é.


    Mas esse processo não acontece isolado. Ele é influenciado pelo ambiente, pelas relações e pelas experiências vividas.


    Como o preconceito aparece no trabalho e nas relações


    Além da família e da religião, o preconceito também se manifesta em outros espaços.


    Gabriele traz exemplos claros de situações no mercado de trabalho. Pessoas sendo descartadas em processos seletivos por sua orientação sexual ou identidade de gênero.


    "Ah, eu não quero contratar tal pessoa porque ele é gay", relata.


    Essas experiências reforçam a sensação de exclusão e limitam o acesso a oportunidades.


    Em outros casos, a violência é ainda mais direta, incluindo agressões físicas e situações de abuso.


    Esse conjunto de experiências cria um ambiente constante de alerta e insegurança.


    Quando procurar ajuda psicológica


    Uma dúvida comum é saber quando é o momento de buscar ajuda.


    Gabriele aponta alguns sinais importantes. "Quando você acorda todo dia com aquela dúvida… quando nada te entretém… alguma coisa está errada".


    A presença de ansiedade, depressão, dificuldade de concentração ou sintomas físicos também pode indicar a necessidade de acompanhamento.


    Mas a terapia não precisa começar apenas em momentos de crise.


    Ela também pode ser um espaço de compreensão. "O psicólogo é para a gente se entender e se olhar no espelho e se amar".


    O papel da terapia na construção de uma vida com menos dor


    Dentro da terapia, o objetivo não é mudar quem a pessoa é, mas ajudá-la a compreender sua própria experiência.


    Isso inclui trabalhar conflitos internos, entender de onde vêm certas crenças e desenvolver novas formas de lidar com o ambiente.


    Gabriele reforça que esse processo é individual. Não existe um caminho único, nem uma solução pronta.


    Mas existe a possibilidade de construir uma relação mais saudável consigo mesmo.


    Entre se encaixar e se reconhecer


    A pressão para se encaixar pode parecer mais simples no curto prazo. Mas, ao longo do tempo, ela cobra um preço alto.


    A tentativa de corresponder às expectativas dos outros pode afastar a pessoa de si mesma.


    E, nesse processo, o sofrimento deixa de ser apenas externo e passa a ser interno.


    Reconhecer quem se é, mesmo que isso desafie expectativas, não resolve todas as dificuldades.


    Mas abre espaço para uma relação mais honesta com a própria vida.


    E, muitas vezes, esse é o primeiro passo para que o cuidado com a saúde mental deixe de ser uma resposta à dor e passe a ser uma forma de sustentar quem você é.


    Continue lendo


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