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    Sexualidade após a maternidade: por que a libido diminui no puerpério

    Stefanie Schmitt, Letícia Fernandes de Almeida
    19 Jun 2024
    5 min de leitura

    Entenda o impacto do corpo, dos hormônios e da rotina na sexualidade materna


    A sexualidade após a maternidade é uma das dúvidas mais silenciosas entre mulheres. A mudança no desejo, a dificuldade de se reconhecer no próprio corpo e a sensação de distância na relação são experiências mais comuns do que parecem, mas ainda pouco faladas.


    Esse desconforto não surge do nada. Ele começa, muitas vezes, ainda na gestação e se intensifica no puerpério, período marcado por adaptações físicas, emocionais e profundas transformações na rotina.


    Neste bate-papo da Olhi sobre o tema, a terapeuta Letícia Fernandes de Almeida explica que falar sobre sexualidade materna exige olhar para esse processo como um todo. "Falar em sexualidade materna é muito amplo", afirma, ao destacar que cada experiência vai depender da realidade de cada mulher, da forma como essa maternidade acontece e das relações que a atravessam.


    Por que a libido diminui no puerpério


    Uma das perguntas mais frequentes é sobre a queda do desejo após o nascimento do bebê.


    Letícia explica que esse movimento tem relação direta com o funcionamento do corpo. Durante o puerpério, há um aumento da prolactina, hormônio responsável pela produção de leite.


    Esse aumento interfere no ciclo menstrual e pode bloquear a ovulação, o que impacta diretamente a libido. "Quando essa prolactina está mais alta, muitas vezes essa pessoa não está ovulando", explica.


    Mas a questão não é apenas hormonal. O corpo está atravessando um processo intenso de adaptação, e isso muda a forma como o desejo aparece.


    Como o cansaço e a rotina impactam o desejo sexual


    Além das mudanças hormonais, o contexto da maternidade também influencia diretamente a sexualidade.


    O puerpério é um período de alta demanda. Privação de sono, sobrecarga emocional e falta de rede de apoio são elementos frequentes nesse momento.


    Letícia destaca que a energia da mulher tende a ser direcionada para o cuidado com o bebê. "É muito natural que durante esse processo do puerpério esse interesse esteja um pouco diminuído".


    Isso não significa ausência definitiva de desejo, mas uma reorganização de prioridades e de energia.


    O que muda no corpo da mulher depois da gestação


    A relação com o próprio corpo também passa por uma transformação importante.


    Desde a gestação, quando a barriga começa a crescer, muitas mulheres já percebem mudanças na forma como se relacionam com a sexualidade.


    Letícia comenta que é comum surgirem desconfortos ou inseguranças. Algumas mulheres passam a ter dificuldade de manter relações por sentirem a presença do bebê ou por medo de machucar.


    Depois do nascimento, essas mudanças se intensificam. O corpo carrega marcas físicas e simbólicas desse processo.


    "É o mesmo corpo que experimenta sexualidade, que é o mesmo corpo que vai parir", explica.


    Essa sobreposição de experiências altera a forma como a mulher percebe o próprio corpo e o próprio desejo.


    A influência da amamentação na libido


    A amamentação também tem um papel importante nesse cenário.


    Com a prolactina elevada, há uma redução da lubrificação e da excitação, o que pode impactar diretamente a experiência sexual.


    Letícia reforça que a libido não depende apenas de hormônios, mas eles são um dos fatores relevantes nesse momento.


    Além disso, o próprio ciclo menstrual fica alterado, o que modifica a dinâmica natural do desejo ao longo do mês.


    Por que nem toda mulher vive a sexualidade da mesma forma


    Apesar de existirem padrões, a experiência não é igual para todas.


    Letícia chama atenção para isso ao dizer que algumas mulheres podem, inclusive, ter aumento do desejo durante a gestação, enquanto outras já percebem uma diminuição nesse período.


    Depois do nascimento, o mesmo acontece. Algumas retomam o desejo mais cedo, outras levam mais tempo.


    Esse tempo não é um problema em si. Ele faz parte da adaptação.


    O impacto da imagem social da mãe na sexualidade


    Um ponto importante que atravessa a experiência da sexualidade materna é a construção social da figura da mãe.


    Existe uma expectativa de que a mãe ocupe um lugar quase intocável, distante do desejo.


    Letícia explica que essa imagem interfere diretamente na forma como a mulher se percebe. "Quando a gente tem essa imagem da mãe imaculada, a gente não consegue dialogar com o desejo dessa pessoa".


    Essa desconexão pode gerar culpa, dúvida e dificuldade de acessar o próprio prazer.


    Por que a sexualidade não volta a ser como antes


    Uma expectativa comum é a de que, após um período, tudo volte ao que era antes da maternidade.


    Mas essa ideia pode gerar frustração.


    A experiência da maternidade transforma não apenas a rotina, mas a relação com o corpo, com o tempo e com o prazer.


    Letícia propõe um olhar diferente. Em vez de tentar recuperar o que existia, é possível construir novas formas de viver a sexualidade.


    Essa mudança envolve entender que o desejo pode se reorganizar de outras maneiras.


    Como adaptar a sexualidade à nova fase da vida


    Diante dessas transformações, a sexualidade também precisa ser ressignificada.


    Isso pode incluir o uso de recursos como lubrificação, maior atenção ao tempo de excitação e exploração de outras formas de prazer.


    Letícia explica que o tempo necessário para o corpo responder pode ser diferente nesse momento. "Muitas vezes a gente não respeita esse tempo de excitação".


    Além disso, é possível ampliar o entendimento do que é uma prática sexual.


    A experiência não precisa estar centrada na penetração. Outras formas de contato e estímulo podem ser exploradas.


    O papel do autoconhecimento na sexualidade materna


    Outro ponto que aparece na fala é a importância do autoconhecimento.


    Muitas mulheres deixam de se explorar ao longo da vida e chegam à maternidade sem uma conexão clara com o próprio corpo.


    "Ter um momento de auto-toque, de auto-prazer, de auto-exploração é algo que fica lá na adolescência", observa Letícia.


    Retomar esse contato pode ser um caminho para entender o que faz sentido nesse novo momento.


    Entre transformação e adaptação


    A sexualidade após a maternidade não desaparece, mas se transforma.


    Ela passa a ser atravessada por mudanças hormonais, físicas, emocionais e sociais.


    Em vez de buscar um retorno ao passado, o que se constrói é uma nova relação com o corpo e com o desejo.


    E, dentro desse processo, reconhecer que cada experiência é única pode ser o primeiro passo para viver essa fase com mais compreensão e menos cobrança. Contar com acompanhamento especializado pode ajudar nesse caminho.


    Continue lendo


    → Falta de libido é normal? Entenda como a sexualidade muda em cada fase da vida


    → Amamentação dói? Entenda o que é normal e quando procurar ajuda

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