O mercado da economia do cuidado

A economia do cuidado ainda é tratada como um apêndice, algo doméstico, não remunerado, social ou assistencial.
Mas, quando observamos certos dados econômicos com mais atenção, o que aparece não é um apêndice: é um mercado que sustenta milhões de mulheres e seus dependentes. Neste mercado, o Brasil não carece de demanda, nem de força de trabalho. O que falta é reconhecimento, estrutura e investimento.
Nosso país tem hoje cerca de 104 milhões de mulheres, ou pouco mais da metade da população. Entre elas, aproximadamente 72 milhões estão em idade ativa, de acordo com o IBGE (2022). Dessas mulheres, 41,5 milhões estão ocupadas no mercado de trabalho (PNAD Contínua 2022). E, dentro desse grupo, estima-se que exista um contingente de 10 milhões de empreendedoras segundo o Sebrae (2024).
Dessas empreendedoras, cerca de 5,3 milhões atuam no setor de serviços, onde justamente se concentram as atividades tradicionalmente associadas à economia do cuidado, como manutenção do bem-estar físico e mental das pessoas, alimentação, educação, beleza, cuidados com a casa, crianças, pessoas idosas, etc.
Ou seja: a economia do cuidado não é um "novo setor econômico", "coisa social" ou "amor". Ela é um mercado ignorado ou segmentado com base em nomes antigos ou novos como "bem-estar" ou "wellness", que talvez existam justamente para retirar das mulheres seu protagonismo econômico…
Aqui, falo especificamente das atividades de cuidado que já operam ou podem operar como serviços econômicos, com oferta, demanda e geração de renda, ainda que marcadas por falhas estruturais de precificação e escala.
E, para sustentar a hipótese de desinteresse estrutural, podemos olhar para a renda gerada pelo trabalho dessas empreendedoras no setor de serviços.
Das 5,3 milhões de empreendedoras no setor de serviços — perfil detalhado na nossa pesquisa com mulheres empreendedoras — aproximadamente 2,8 milhões têm renda de até R$ 1.500 por mês, segundo dados do Sebrae (2024). E, isso não indica pouca demanda, falta de atividade, ou baixa participação econômica. Indica um padrão persistente de sub-remuneração.
São milhões de mulheres trabalhando sem reconhecimento, acesso a tecnologia, canais de venda ou redes de suporte que permitam a elas escalarem seu impacto para fora do que tradicionalmente foi identificado como "trabalho de mulher", o que, na visão de muitos, não gera inovação ou conhecimento de ponta.
Se esse quadro não é falta de interesse ou de sensibilidade, ele é com certeza falta de visão. O impacto econômico de investir na economia do cuidado não se limita às mulheres que prestam serviços, ele se multiplica pelo fato de as mulheres ocuparem um papel central na organização da vida em sociedade.
Em 2024, 51,7% dos lares brasileiros já eram chefiados por mulheres, segundo Janaína Feijó (FGV/IBRE). Além disso, pesquisa da Serasa de 2023 revelou que 88% das mulheres já participavam ativamente das decisões financeiras de suas casas.
E esses lares, em sua maioria, não eram compostos por uma única pessoa: 80% dos domicílios chefiados por mulheres no Brasil têm duas ou mais pessoas (IBGE, 2023). Na prática, isso significa que qualquer aumento de renda feminina tende a repercutir sobre crianças, adolescentes, idosos e outros adultos do mesmo núcleo familiar.
Para completar, estudos internacionais demonstram que as mulheres apresentam padrões empíricos distintos de alocação de recursos, com efeitos sociais mensuráveis. Elas têm maior probabilidade do que os homens de direcionar gastos para crianças, educação, alimentação mais nutritiva e saúde (Eissler & Bryan, 2025)
Portanto, reconhecer e potencializar mulheres que atuam na economia do cuidado não é apenas uma estratégia de geração de valor, é também uma política econômica indireta de melhoria de indicadores sociais, com efeitos sobre educação, saúde e bem-estar.
Ao investir neste setor, ampliando o acesso a novas tecnologias, canais de venda e redes de suporte, o efeito não se restringe a elas. Ele alcança milhões de lares brasileiros, em um país onde as mulheres já são protagonistas na organização da vida cotidiana.
A economia do cuidado não é uma invenção de algumas feministas. Ela sempre existiu e sustentou o país de forma silenciosa. O desafio agora é tratá-la como aquilo que ela de fato é: um mercado relevante para a economia nacional que demanda investimento.
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→ Mulheres Empreendedoras: contexto de atuação
→ Cuidar sustenta a sociedade, mas quem sustenta o cuidado?
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