Nós mulheres conseguimos ser vistas quando?

Quando nos tornamos invisíveis!
Parece que a história da civilização nos mostra que as mulheres valorizadas, "vistas" pela sociedade, por sua família, marido e filhos, acontece quando elas fazem o não visível, ou seja, cuidar dos afazeres domésticos, administrar o lar, cuidar/educar os filhos, manter a harmonia da família, cuidar do marido, dos pais quando envelhecem etc., etc. É um trabalho que ninguém quer assumir, que não é remunerado, que deve ser exercido sem questionamentos. Assim, se tornam visíveis aos olhos da sociedade que não reconhece como trabalho, mas como a realização de um papel que cabe a mulher.
O reconhecimento não acontece pelo trabalho realizado, porém se esse trabalho ficar a desejar somos apontadas e "vistas" como mulheres que não cumprem com suas obrigações e papéis.
Sabemos que os tempos mudaram, século 21, mas as exigências hoje ultrapassam o domínio do lar. As mulheres exercem funções e cargos em um mercado de trabalho que de olho nesse modelo de invisibilidade espera que o comportamento feminino invisível se perpetue. As profissões mais ligadas ao cuidado (escolares, idosos, serviços domésticos, serviços de saúde e bem-estar, de limpeza, trabalhos administrativos etc) são os que oferecem maior número de vagas justificando inclusive que as mulheres têm "talento", "perfil" para esses cargos, não comentam entretanto, que são as áreas que oferecem menores salários — um padrão que se aprofunda quando analisamos a economia do cuidado como um todo.
A questão da invisibilidade não termina por aí
Assistimos com preocupação "o retorno da magreza extrema", exibido por influencers, modelos e mulheres ligadas a mídia, que ditam costumes e regras de "bem estar" e "saúde".
Então, me parece que ficar magérrima, quase invisível, nos torna visível! Coerência para quê, não é mesmo?
Somos valorizadas pelo empenho e dedicação com nosso corpo quando ele é transformado em quase nada — pele e osso.
E nesse espetáculo do culto ao corpo magro, vale tudo: não comer, extenuantes exercícios físicos, comprometer o orçamento doméstico para comprar as canetas milagrosas e toda uma panaceia que compromete a saúde física e mental. Mas, dizem as mulheres, "o que importa é que estou magra".
É preciso uma escuta apurada para perceber que existe uma função no desenvolvimento desses sintomas — cumpro as regras perversas que prometem me tornar visível.
Uma regra é driblar, se afastar da comida. A fome e o alimento passam a ocupar um lugar negligenciado. Não há prazer, o comer se transformou em algo a ser evitado, um pecado que precisa ser expiado. Mulheres gordas, "visíveis", são julgadas de forma cruel: são preguiçosas, não têm disciplina, não se cuidam, são glutonas, não têm amor-próprio, desleixadas, não cuidam da saúde, etc. De que saúde estamos falando mesmo?
A pergunta que fica
Qual o gozo que está presente na magreza extrema? Que projeto de poder é esse que quer nos perpetuar na condição da invisibilidade?
Como fica a sexualidade e o desejo? Como acreditar que é possível ter saúde quando o que se vê é cansaço, medo, ansiedade, muita insegurança e a sensação de fracasso por não dar conta de tantas demandas?
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→ O mercado da economia do cuidado
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