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    Autoconhecimento nos relacionamentos: por que você pode estar vivendo escolhas que não são suas

    Stefanie Schmitt, Fabi
    10 Jun 2024
    7 min de leitura

    Entender o que realmente faz sentido para você muda a forma como você se relaciona com o outro


    Existe uma pergunta simples, mas que costuma ser desconfortável quando levada a sério: o que você faz por você mesma e o que você acredita que faz por você, mas, na prática, está fazendo pelo outro?


    Em muitos casos, a dificuldade nos relacionamentos não está na falta de tentativa ou de esforço. Pelo contrário, está justamente no excesso de adaptação. Muitas mulheres seguem fazendo escolhas, tomando decisões e até moldando a própria forma de viver o prazer a partir do que esperam delas, sem perceber o quanto isso as afasta de si mesmas.


    A terapeuta tântrica e sexóloga Fabi chama atenção para esse movimento ao lembrar que o autoconhecimento é o que sustenta qualquer relação saudável. Sem ele, a tendência é repetir padrões que não necessariamente fazem sentido individualmente.


    Como saber se suas escolhas são realmente suas


    Nem sempre é fácil perceber quando uma decisão vem de um desejo genuíno ou de uma expectativa externa. Isso aparece em questões importantes da vida, como ter filhos, definir o tipo de relacionamento ou até entender o que se espera da própria intimidade.


    Fabi explica que o autoconhecimento começa justamente nesse ponto de investigação: "É saber como funcionamos, quem nós somos, quais são os nossos gatilhos emocionais, por que que a gente reage a determinada forma a coisas que acontecem".


    Situações aparentemente simples já mostram como cada pessoa reage de forma diferente. Um atraso, uma ausência, uma resposta não dada. Enquanto algumas pessoas passam por isso sem impacto, outras se sentem desvalorizadas. E é nesse contraste que aparece a importância de olhar para si.


    Sem esse processo, decisões importantes acabam sendo tomadas no automático, muitas vezes baseadas no que parece funcionar para a maioria, mas não necessariamente para quem está vivendo aquilo.


    Quando o relacionamento passa a ser adaptação constante


    Uma das consequências mais comuns da falta de autoconhecimento é a adaptação excessiva dentro das relações. Isso aparece, por exemplo, quando uma pessoa aceita algo que não deseja apenas para manter o vínculo.


    Fabi traz um exemplo recorrente nos atendimentos: "Se alguém cede só pra contentar o outro, aí costuma dar problema".


    Isso pode acontecer em diferentes níveis. Desde decisões mais estruturais, como abrir ou não o relacionamento, até escolhas mais sutis, como a forma de viver a intimidade. Quando o desejo não é compartilhado de forma genuína, a relação passa a carregar um peso que, cedo ou tarde, aparece.


    O problema não está na escolha em si, mas no motivo por trás dela. Quando não existe clareza interna, a tendência é confundir concessão com conexão.


    Por que muitas mulheres ainda priorizam o outro


    Mesmo com avanços importantes nas discussões sobre autonomia e liberdade, ainda existe um padrão muito presente nas relações. Muitas mulheres seguem colocando o outro no centro das decisões, inclusive quando falam sobre prazer e bem-estar.


    Isso se manifesta de formas que nem sempre são óbvias. Comprar algo para si, mas pensando em agradar o parceiro. Buscar melhorar a vida íntima com o objetivo principal de corresponder a uma expectativa externa.


    Essa lógica se sustenta porque, culturalmente, o olhar feminino foi direcionado para fora. E, como consequência, o processo de olhar para dentro precisa ser aprendido.


    Fabi reforça que essa mudança não acontece de forma imediata. "O processo de autoconhecimento é contínuo. A gente sabe quando começa, mas não tem um ponto final".


    Autoconhecimento não é um destino, é um processo


    Uma das ideias mais importantes quando se fala em autoconhecimento é entender que não existe um momento em que ele está "resolvido". Ele se constrói ao longo da vida, conforme novas experiências aparecem.


    Isso inclui revisitar escolhas, mudar de opinião e questionar o que antes parecia definitivo. Para Fabi, essa flexibilidade é essencial: "Não importa quem eu fui até agora. Se tem algo que me incomoda, é através do autoconhecimento que eu vou ter segurança de exercer essa mudança".


    Essa possibilidade de mudança não significa instabilidade, mas amadurecimento. Ao longo do tempo, novas versões de si mesma surgem, e a relação com o outro precisa acompanhar esse movimento.


    O impacto do autoconhecimento na vida afetiva e sexual


    Quando o autoconhecimento se aprofunda, ele transforma diretamente a forma como a pessoa se relaciona com o próprio corpo e com o prazer. Isso não acontece apenas no campo individual, mas também na dinâmica do casal.


    Fabi observa que muitas pessoas chegam aos atendimentos sem nunca terem explorado a própria experiência de prazer. "Foram pessoas que nunca tinham tido orgasmo em casamentos de doze anos".


    Ao longo do processo, quando existe espaço para entender o próprio corpo e comunicar o que faz sentido, a relação se transforma. Em alguns casos, isso fortalece o vínculo. Em outros, revela incompatibilidades que já existiam, mas não estavam claras.


    Esse movimento não deve ser visto como um problema, mas como um ajuste de realidade. Quando há mais clareza, as escolhas deixam de ser baseadas em expectativa e passam a ser baseadas em verdade.


    Como lidar com a pressão de estar em um relacionamento


    Datas específicas, como o Dia dos Namorados, costumam intensificar um sentimento de comparação. Surge a ideia de que estar solteira é um sinal de que algo está faltando.


    Fabi propõe uma mudança de perspectiva importante. "A gente é uma boa parceria pra outra pessoa quando a gente é uma boa parceria pra nós mesmas".


    Essa inversão desloca o foco da busca externa para a construção interna. Em vez de procurar alguém que preencha uma ausência, o convite passa a ser desenvolver uma relação consigo mesma que seja sólida e suficiente.


    Isso não elimina o desejo de estar em um relacionamento, mas transforma a forma como ele é construído. A relação deixa de ser uma necessidade urgente e passa a ser uma escolha.


    Ex, carência ou escolha consciente?


    Outro ponto que costuma gerar dúvida é o contato com relações passadas. A decisão de manter ou retomar um vínculo pode parecer simples, mas carrega muitas camadas emocionais.


    Fabi sugere um exercício direto: "Eu tô entrando em contato com essa pessoa porque tô me sentindo carente ou porque essa pessoa me faz bem?"


    Essa distinção muda completamente o sentido da ação. Quando existe carência, o risco é repetir padrões que já não funcionaram. Quando há clareza, a decisão tende a ser mais consciente.


    O autoconhecimento aparece, novamente, como base para essa diferenciação. Sem ele, é fácil confundir saudade com necessidade ou apego com conexão.


    O que realmente sustenta um relacionamento saudável


    Ao longo de todas essas situações, existe um ponto em comum. A qualidade de uma relação não depende apenas da conexão entre duas pessoas, mas da relação que cada uma constrói consigo mesma.


    Isso inclui reconhecer desejos, limites, expectativas e responsabilidades. Também envolve entender que o outro não é responsável por preencher lacunas emocionais.


    Fabi resume essa ideia de forma direta: "Entrar numa parceria pra somar sempre, e não querer que o outro preencha algum buraco".


    Essa visão não diminui a importância do vínculo, mas o torna mais leve e mais sustentável.


    Entre repetição e escolha


    Muitas das dificuldades nos relacionamentos não surgem de forma isolada. Elas fazem parte de padrões que se repetem ao longo do tempo, muitas vezes sem que sejam percebidos.


    O autoconhecimento não elimina os desafios, mas permite que eles sejam vistos com mais clareza. E, a partir disso, novas escolhas se tornam possíveis.


    No fim, não se trata de encontrar respostas prontas, mas de desenvolver a capacidade de fazer perguntas mais honestas. Porque, quando essa mudança acontece, o relacionamento deixa de ser um lugar de adaptação constante e passa a ser um espaço de construção consciente.


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