Como saber se posso me aposentar pelo INSS?
Entender seu histórico de contribuições antes de chegar perto da aposentadoria pode ajudar a proteger uma renda futura e outros direitos que o INSS oferece ao longo da vida.
Pensar em aposentadoria costuma parecer assunto para depois. Aos 20 ou 30 anos, pode ser difícil imaginar uma fase da vida em que trabalhar já não seja tão simples. Aos 40, muita gente ainda acredita que deixou para pensar nisso tarde demais. Entre uma coisa e outra, também aparecem dúvidas sobre o próprio sistema: será que vale a pena contribuir para o INSS? Será que ele vai existir quando chegar a minha vez? E, afinal, como saber se posso me aposentar pelo INSS?
Para a advogada Luana Soto, mestre em Direito e especialista em aposentadoria e benefícios do INSS, olhar para a Previdência apenas quando a aposentadoria se aproxima significa deixar de considerar uma parte importante do que ela representa. O INSS também está presente quando alguém precisa se afastar por doença, tem um filho, enfrenta uma incapacidade ou deixa dependentes.
“O INSS ele aparece ali nos momentos que a pessoa tá mais precisando mesmo”, explica Luana. É justamente por isso que pensar na contribuição não diz respeito somente a quanto receberemos quando pararmos de trabalhar, mas à segurança que estamos construindo para situações que nem sempre conseguimos prever.
Quando começar a pensar na aposentadoria?
Não existe uma única idade para começar. Uma pessoa que ainda estuda e não tem obrigação de contribuir, por exemplo, pode fazer uma contribuição facultativa. Além de contar como tempo de contribuição para o futuro, esse vínculo pode dar acesso a outros benefícios previdenciários caso seja necessário.
Na prática, porém, poucas pessoas aos 20 anos estão preocupadas com aposentadoria. Luana conta que já encontra clientes na faixa dos 30 começando a planejar, mas considera os 40 uma idade especialmente importante para olhar com atenção para o histórico previdenciário.
“Chegou nos 40 anos, é o momento de parar, para a mulher começar a pensar climatério, toda essa fase hormonal e começar a pensar também o seu planejamento previdenciário.”
A razão que ela apresenta é bastante concreta. Pela aposentadoria por idade, a mulher precisa cumprir os requisitos previstos para idade e tempo mínimo de contribuição. Mesmo alguém que chega aos 40 sem nunca ter contribuído ainda pode ter tempo para construir esse histórico.
Isso também muda a maneira de olhar para um benefício que, inicialmente, pode parecer pequeno. “Talvez não dê pra pessoa viver somente disso, mas é garantido, é vitalício”, afirma Luana. A aposentadoria do INSS não precisa necessariamente ser imaginada como a única renda do futuro. Ela pode fazer parte de um planejamento que inclua outras fontes de renda e investimentos.
Quanto devo contribuir para o INSS?
A resposta depende muito da trajetória profissional de cada pessoa. Quem trabalha com carteira assinada tem a contribuição descontada automaticamente. Nesse caso, Luana recomenda principalmente conferir se os vínculos e as informações do histórico profissional estão registrados corretamente no INSS.
Para autônomos e contribuintes facultativos, existe mais espaço para decidir quanto contribuir. E é justamente aí que uma escolha aparentemente simples pode ficar mais complicada.
“Sim, a pessoa pode contribuir com mais de um salário mínimo para que tenha um valor de aposentadoria maior que um salário mínimo. Faz todo sentido. Só que não dá pra gente cravar do tipo: ‘Ah, eu vou pagar dois salários e vou receber dois salários.’”
O valor da aposentadoria depende do histórico de contribuições e das regras previdenciárias aplicáveis àquela pessoa. Isso se torna particularmente relevante para quem passou parte da vida profissional com salários mais altos como CLT e depois decidiu empreender ou trabalhar de forma autônoma. Começar a contribuir sobre um valor muito baixo sem fazer as contas pode alterar a média construída anteriormente.
Por isso, o planejamento previdenciário não serve apenas para descobrir quando alguém poderá se aposentar. Ele também ajuda a avaliar quanto faz sentido colocar no INSS agora diante do retorno esperado no futuro.
Quem era CLT e virou MEI perde as contribuições anteriores?
A mudança na forma de trabalhar não significa começar a história previdenciária novamente. Quem trabalhou como CLT e depois abriu um MEI continua tendo aquele período anterior registrado em seu histórico.
“Quando você muda o regime, igual você falou de CLT e foi pro MEI, você não perde o seu histórico”, explica Luana.
Isso também ajuda a desfazer uma ideia comum de que todo MEI necessariamente se aposentará recebendo apenas um salário mínimo. Segundo Luana, isso acontece quando a pessoa possui somente contribuições feitas como MEI. Se ela teve outros vínculos durante a vida profissional, essas contribuições entram na análise.
A contribuição previdenciária do MEI já está incluída no pagamento mensal do DAS. Quem quiser conferir se os pagamentos estão aparecendo corretamente pode consultar seu histórico pelo Meu INSS.
Também existe a possibilidade de complementar a contribuição, mas Luana faz uma ressalva importante: pagar mais não significa automaticamente receber um benefício proporcionalmente maior. Ela cita o caso de um cliente que queria aumentar a contribuição e, depois dos cálculos, percebeu que o valor adicional pago mensalmente não produziria o aumento esperado na aposentadoria.
“Eu não recomendo ninguém fazer uma complementação sem um estudo”, afirma. Antes de aumentar o recolhimento, é preciso entender qual regra poderá ser utilizada e qual impacto aquela contribuição terá no benefício. Uma consultoria previdenciária pode ajudar a fazer essa conta da forma correta.
Contribuir para o INSS protege apenas a aposentadoria?
A aposentadoria é apenas uma das razões pelas quais Luana considera importante manter o vínculo previdenciário. Para quem trabalha por conta própria, essa proteção pode ganhar ainda mais relevância justamente porque não existem algumas das garantias associadas ao trabalho com carteira assinada.
Uma delas é a possibilidade de proteção aos dependentes. Em caso de morte do segurado, filhos menores podem ter direito à pensão até os 21 anos, de acordo com as condições aplicáveis ao benefício. Em determinadas situações de incapacidade, a duração pode ser diferente.
Outra proteção aparece quando a própria pessoa não consegue trabalhar. Luana compara o INSS a um seguro que precisa estar ativo para poder ser acionado quando surge a necessidade. O problema é descobrir isso somente depois que algo aconteceu.
Ela relata receber pessoas que chegam perto dos 60 anos sem conseguir mais trabalhar, por doença ou dificuldade de permanecer no mercado, e descobrem que perderam o vínculo com o INSS porque deixaram de contribuir anos antes.
“Você tem que tá pagando ali, ou de um seguro, né? Você tem que tá pagando para em algum momento você acionar o sinistro.”
Essa lógica ajuda a entender por que a decisão de contribuir não deveria ser tomada apenas calculando o valor da aposentadoria. Durante décadas de vida profissional, muita coisa pode mudar: emprego, renda, negócio, saúde e estrutura familiar.
O salário-maternidade também faz parte dessa proteção
Entre os benefícios do INSS que muitas mulheres desconhecem está o salário-maternidade. Luana chama atenção especialmente para quem está fora de um vínculo CLT quando engravida.
“Todo mundo tinha que divulgar isso”, diz. Para ela, entre as perguntas feitas a uma mulher grávida deveria estar também: “Tá pagando INSS?”
Luana explica que hoje é possível ter acesso ao salário-maternidade mesmo quando a mulher começa a contribuir depois de descobrir a gravidez. Ela também chama atenção para quem teve filhos nos últimos anos e não sabia desse direito, já que, dependendo da situação, ainda pode ser possível verificar o acesso ao benefício.
Para uma trabalhadora autônoma, esse período de renda pode fazer uma diferença concreta. “Por mais que você seja autônoma, por mais seja autônoma que você queira, é bebê chorando, é bebê que não dorme. Então você tem aqueles primeiros quatro meses ali que você tem uma rendinha.”
A fala ajuda a recolocar o INSS em uma perspectiva mais ampla. Contribuir não significa apenas financiar uma aposentadoria distante. Significa participar de um sistema que pode ser necessário em diferentes momentos da vida.
Planejar a aposentadoria é pensar na renda que você quer ter no futuro
Quando alguém pergunta como saber se pode se aposentar pelo INSS, idade e tempo de contribuição são parte da resposta. Mas a trajetória profissional também importa. Uma pessoa pode ter sido CLT, depois MEI, ter trabalhado como autônoma ou até passado períodos no exterior. Esses caminhos não necessariamente apagam aquilo que foi construído anteriormente.
É por isso que Luana insiste na importância de olhar para o histórico completo antes de tomar decisões sobre quanto contribuir ou quando pedir a aposentadoria. “São tantas regras, tantas modalidades, tanto cálculo, que é muito difícil que uma pessoa consiga ter um norte sozinha.”
O planejamento também permite fazer uma pergunta diferente. Em vez de pensar somente “quando posso me aposentar?”, é possível pensar em qual renda aquela contribuição pode ajudar a construir e qual papel ela terá na vida futura.
Para Luana, a renda vitalícia é uma característica especialmente relevante. Uma mulher que se aposenta e vive por mais 20 ou 30 anos continuará recebendo o benefício durante esse período. E, antes disso, ainda pode precisar do sistema por uma doença, maternidade ou outra situação inesperada.
“É o direito de envelhecer, o direito de envelhecer com dignidade, de ter uma renda, de ter uma renda vitalícia, de ter uma segurança”, resume Luana.
Talvez seja justamente essa a mudança mais importante na maneira de pensar sobre aposentadoria. Ela não começa quando o trabalho termina. Começa muito antes, nas escolhas feitas enquanto ainda existe tempo para construir alguma segurança para uma fase da vida que não conseguimos prever completamente.
Se você quer entender melhor sua situação e seus direitos previdenciários, conheça especialistas da área de Jurídico na Olhi.
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