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    Por que a saúde mental das mães deve ser prioridade?

    Julie Maciel, Regiane Bertolina
    8 Mai 2026
    4 min de leitura

    A sobrecarga invisível da maternidade e o impacto emocional que muitas mulheres vivem em silêncio


    Ser mãe envolve mudanças que começam antes mesmo do nascimento do filho. Aos poucos, a vida se reorganiza, o corpo muda, a rotina muda e, principalmente, a forma de pensar e sentir também se transforma.


    Como explica a psicóloga Regiane Bertolina, "antes mesmo dela se tornar mãe já tem uma transformação, uma transformação psicológica, biopsicossocial". O que muitas vezes não aparece com a mesma força é o impacto emocional que acompanha esse processo.


    Entre dar conta da casa, do trabalho, dos filhos e de uma lista mental que nunca termina, algo começa a pesar. E esse peso nem sempre encontra espaço para ser reconhecido.


    Quando a sobrecarga deixa de ser pontual


    A rotina de uma mãe raramente termina no que é visível. Existe uma carga constante de antecipar, lembrar, organizar e sustentar tudo ao redor.


    Regiane observa isso no dia a dia da clínica. "As mães trazem muito preocupação com o remédio do filho, com a lista de supermercado, com o trabalho, com como vão conciliar tudo isso".


    Essa sobrecarga não é apenas prática. Ela é mental. E, quando se acumula, começa a afetar diretamente o bem-estar.


    A dúvida que aparece com frequência não é pequena. "Será que eu vou dar conta?", como muitas mulheres trazem.


    A romantização que impede a mulher de falar


    Parte da dificuldade em lidar com esse peso vem de uma ideia ainda muito presente: a de que a maternidade deve ser vivida sem conflito.


    Regiane aponta como isso aparece na prática. "A mãe não pode reclamar, a mãe não pode sentir". E quando sentimentos difíceis surgem, eles acabam sendo interpretados de forma equivocada.


    "Se a mãe tem depressão pós-parto, surge a ideia de que ela não ama o filho".


    Esse tipo de visão cria um silenciamento. A mulher sente, mas não se autoriza a falar. E, quando não fala, não busca ajuda.


    Amor e exaustão podem coexistir


    Um dos pontos mais importantes nessa discussão é separar duas coisas que costumam ser misturadas.


    Regiane explica que é possível amar o filho e, ao mesmo tempo, sentir o peso da maternidade. "Dá para separar a maternidade do filho. Não quer dizer que tu ame teu filho e que tu não sofra o peso da maternidade".


    Essa ambivalência é natural, mas ainda pouco aceita. E, quando não há espaço para ela, surge a culpa.


    Uma culpa que muitas mulheres carregam sem questionar, como se fosse parte obrigatória da experiência.


    Por que a mãe se coloca em último lugar


    Com o tempo, essa dinâmica vai afastando a mulher de si mesma.


    Na clínica, Regiane percebe isso com clareza. "As mães chegam muito desconectadas de si mesmas".


    A rotina gira em torno do cuidado com o outro, e a própria necessidade fica sempre depois. Não por falta de vontade, mas porque não há espaço.


    E, aos poucos, essa ausência de espaço vira esgotamento.


    A importância de dividir o cuidado de verdade


    Falar de saúde mental das mães passa, inevitavelmente, pela divisão de responsabilidades.


    Ainda existe uma ideia de que o cuidado é naturalmente da mulher, e o outro ajuda quando pode. Mas essa lógica não sustenta a realidade atual.


    Regiane traz um ponto importante ao falar disso. Não se trata de ajuda, mas de responsabilidade compartilhada.


    A sobrecarga não vem só do fazer, mas do lembrar. Do organizar. Do antecipar.


    E quando tudo isso fica concentrado em uma pessoa, o impacto aparece.


    O papel da rede de apoio na prática


    Diante disso, a rede de apoio deixa de ser opcional.


    Ela pode vir de diferentes lugares. Parceiro, família, amigos ou até apoio profissional. O importante é que exista sustentação.


    Sem isso, a tendência é que a mulher tente dar conta de tudo sozinha — e pague o preço disso.


    Principalmente em contextos mais desafiadores, como o da maternidade solo, onde essa carga se intensifica ainda mais.


    Um espaço onde a mãe pode, finalmente, falar


    Quando a mulher chega à terapia, muitas vezes é a primeira vez que ela consegue nomear o que sente.


    Regiane descreve esse momento com muita clareza. "É o lugar onde ela pode falar que dói, reclamar da rotina, dizer que está cansada".


    Sem julgamento, sem necessidade de justificar o que sente.


    Esse espaço não muda tudo de uma vez, mas ajuda a reorganizar. A entender o que é possível, o que precisa de apoio e como tornar a rotina mais leve.


    Como ela mesma coloca, "a gente não vai mudar tudo, mas entender o que é possível para essa maternidade ser mais saudável".


    Quando cuidar da mãe muda tudo


    Ao final, uma coisa fica evidente.


    Cuidar da saúde mental da mãe não é um cuidado individual. Ele impacta todo o entorno.


    "Quando a saúde dessa mulher está mais restabelecida, todo o contexto dela fica melhor".


    Isso inclui a relação com os filhos, o ambiente da casa e até a forma como essa mulher se percebe.


    Talvez o ponto central seja esse. Reconhecer que quem cuida também precisa ser cuidada — não como exceção, mas como parte essencial da maternidade.


    Continue lendo


    → Como lidar com a sobrecarga emocional das mulheres?


    → Como fazer um ritual de autocuidado no meu dia a dia?


    → Como controlar a ansiedade?

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