Por que a saúde mental das mães deve ser prioridade?
A sobrecarga invisível da maternidade e o impacto emocional que muitas mulheres vivem em silêncio
Ser mãe envolve mudanças que começam antes mesmo do nascimento do filho. Aos poucos, a vida se reorganiza, o corpo muda, a rotina muda e, principalmente, a forma de pensar e sentir também se transforma.
Como explica a psicóloga Regiane Bertolina, "antes mesmo dela se tornar mãe já tem uma transformação, uma transformação psicológica, biopsicossocial". O que muitas vezes não aparece com a mesma força é o impacto emocional que acompanha esse processo.
Entre dar conta da casa, do trabalho, dos filhos e de uma lista mental que nunca termina, algo começa a pesar. E esse peso nem sempre encontra espaço para ser reconhecido.
Quando a sobrecarga deixa de ser pontual
A rotina de uma mãe raramente termina no que é visível. Existe uma carga constante de antecipar, lembrar, organizar e sustentar tudo ao redor.
Regiane observa isso no dia a dia da clínica. "As mães trazem muito preocupação com o remédio do filho, com a lista de supermercado, com o trabalho, com como vão conciliar tudo isso".
Essa sobrecarga não é apenas prática. Ela é mental. E, quando se acumula, começa a afetar diretamente o bem-estar.
A dúvida que aparece com frequência não é pequena. "Será que eu vou dar conta?", como muitas mulheres trazem.
A romantização que impede a mulher de falar
Parte da dificuldade em lidar com esse peso vem de uma ideia ainda muito presente: a de que a maternidade deve ser vivida sem conflito.
Regiane aponta como isso aparece na prática. "A mãe não pode reclamar, a mãe não pode sentir". E quando sentimentos difíceis surgem, eles acabam sendo interpretados de forma equivocada.
"Se a mãe tem depressão pós-parto, surge a ideia de que ela não ama o filho".
Esse tipo de visão cria um silenciamento. A mulher sente, mas não se autoriza a falar. E, quando não fala, não busca ajuda.
Amor e exaustão podem coexistir
Um dos pontos mais importantes nessa discussão é separar duas coisas que costumam ser misturadas.
Regiane explica que é possível amar o filho e, ao mesmo tempo, sentir o peso da maternidade. "Dá para separar a maternidade do filho. Não quer dizer que tu ame teu filho e que tu não sofra o peso da maternidade".
Essa ambivalência é natural, mas ainda pouco aceita. E, quando não há espaço para ela, surge a culpa.
Uma culpa que muitas mulheres carregam sem questionar, como se fosse parte obrigatória da experiência.
Por que a mãe se coloca em último lugar
Com o tempo, essa dinâmica vai afastando a mulher de si mesma.
Na clínica, Regiane percebe isso com clareza. "As mães chegam muito desconectadas de si mesmas".
A rotina gira em torno do cuidado com o outro, e a própria necessidade fica sempre depois. Não por falta de vontade, mas porque não há espaço.
E, aos poucos, essa ausência de espaço vira esgotamento.
A importância de dividir o cuidado de verdade
Falar de saúde mental das mães passa, inevitavelmente, pela divisão de responsabilidades.
Ainda existe uma ideia de que o cuidado é naturalmente da mulher, e o outro ajuda quando pode. Mas essa lógica não sustenta a realidade atual.
Regiane traz um ponto importante ao falar disso. Não se trata de ajuda, mas de responsabilidade compartilhada.
A sobrecarga não vem só do fazer, mas do lembrar. Do organizar. Do antecipar.
E quando tudo isso fica concentrado em uma pessoa, o impacto aparece.
O papel da rede de apoio na prática
Diante disso, a rede de apoio deixa de ser opcional.
Ela pode vir de diferentes lugares. Parceiro, família, amigos ou até apoio profissional. O importante é que exista sustentação.
Sem isso, a tendência é que a mulher tente dar conta de tudo sozinha — e pague o preço disso.
Principalmente em contextos mais desafiadores, como o da maternidade solo, onde essa carga se intensifica ainda mais.
Um espaço onde a mãe pode, finalmente, falar
Quando a mulher chega à terapia, muitas vezes é a primeira vez que ela consegue nomear o que sente.
Regiane descreve esse momento com muita clareza. "É o lugar onde ela pode falar que dói, reclamar da rotina, dizer que está cansada".
Sem julgamento, sem necessidade de justificar o que sente.
Esse espaço não muda tudo de uma vez, mas ajuda a reorganizar. A entender o que é possível, o que precisa de apoio e como tornar a rotina mais leve.
Como ela mesma coloca, "a gente não vai mudar tudo, mas entender o que é possível para essa maternidade ser mais saudável".
Quando cuidar da mãe muda tudo
Ao final, uma coisa fica evidente.
Cuidar da saúde mental da mãe não é um cuidado individual. Ele impacta todo o entorno.
"Quando a saúde dessa mulher está mais restabelecida, todo o contexto dela fica melhor".
Isso inclui a relação com os filhos, o ambiente da casa e até a forma como essa mulher se percebe.
Talvez o ponto central seja esse. Reconhecer que quem cuida também precisa ser cuidada — não como exceção, mas como parte essencial da maternidade.
Continue lendo
→ Como lidar com a sobrecarga emocional das mulheres?
→ Como fazer um ritual de autocuidado no meu dia a dia?
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