O que fazer para esquentar o relacionamento amoroso?
Por que "apimentar" não resolve — e o que realmente faz diferença
Falar sobre como melhorar o relacionamento íntimo ainda costuma vir acompanhado de uma lista de dicas rápidas: produtos, roupas, novidades, técnicas. Mas, na prática, muitas mulheres seguem sem desejo, sem prazer e, principalmente, sem entender o porquê.
Em um bate-papo da Olhi, a terapeuta cognitivo sexual Thalita Cesário trouxe um ponto essencial: antes de pensar em "apimentar" o relacionamento, é preciso olhar para a própria sexualidade e para o contexto em que essa relação acontece.
Por que muitas mulheres acham que têm baixa libido
Uma das principais queixas que chegam ao consultório é a falta de desejo. Mas, segundo Thalita, esse diagnóstico nem sempre está correto.
"Muitas mulheres entendem que têm um problema de libido, quando na verdade estão sobrecarregadas ou dentro de um contexto que não favorece o desejo."
A ideia de que o desejo surge espontaneamente, como um "clique", é reforçada por filmes, novelas e pela indústria pornográfica. Quando isso não acontece, a mulher passa a acreditar que há algo errado com ela.
"Se a gente não sente isso, pensa: 'tem alguma coisa errada comigo'."
Na prática, o desejo muitas vezes depende de contexto, energia, estímulo e segurança — não é automático.
O erro mais comum ao tentar "apimentar" o relacionamento
Diante dessa dificuldade, muitas mulheres buscam soluções rápidas: produtos eróticos, lingerie, novidades. Mas isso, isoladamente, raramente resolve.
"Eu poderia trazer várias dicas, mas a principal é: primeiro olhe para você e para a sua sexualidade."
Thalita chama atenção para um ponto importante: existe uma expectativa social de que a mulher seja responsável por manter o desejo vivo na relação.
"Existe uma cobrança para que a gente esquente o relacionamento, aprenda a ser sensual, compre lingerie, faça isso, faça aquilo."
Enquanto isso, pouco se fala sobre o papel do parceiro — ou sobre o próprio bem-estar da mulher.
Quando o problema não é desejo, mas contexto
Em muitos casos, a ausência de libido está diretamente relacionada ao cansaço, à sobrecarga e à dinâmica do relacionamento.
"É muito gasto de energia para pouca recompensa."
Se a relação não é prazerosa, se existe dor ou desconforto, ou se a mulher está exausta, o corpo reage reduzindo o desejo como forma de proteção.
"Então, para te proteger, eu não vou te dar libido."
Isso explica por que tantas mulheres deixam de sentir vontade, mesmo sem um problema físico ou hormonal.
Sexo na vida real: rotina, cansaço e falta de espaço
Outro ponto central do bate-papo foi a diferença entre o desejo idealizado e o desejo possível na vida adulta.
"O sexo do adulto, em alguns momentos, vai demandar esforço."
Não esforço no sentido de sofrimento, mas de construção de espaço. Diferente da adolescência, a vida adulta envolve trabalho, responsabilidades, filhos, casa.
"Você vai transar pensando se tirou a carne para descongelar."
Nesse contexto, esperar desejo espontâneo pode ser frustrante — e injusto com a própria realidade.
Divisão de tarefas e desejo: o que quase ninguém fala
Um dos pontos mais diretos da conversa foi a relação entre desejo sexual e divisão de responsabilidades dentro da casa.
"Você não quer transar com uma pessoa que não contribui para que você esteja bem."
Quando há sobrecarga, o desejo não desaparece apenas pelo cansaço físico, mas também pela perda de admiração e conexão.
A falta de parceria impacta diretamente a vida sexual — ainda que isso raramente seja discutido como parte do problema.
Autoconhecimento: o que você realmente gosta?
Antes de comunicar ao outro o que funciona, é preciso entender o que funciona para si.
"Você precisa ser assertiva com você primeiro."
Thalita reforça que muitas mulheres ainda não sabem o que gostam — e acabam reproduzindo comportamentos ou buscando soluções que não fazem sentido para elas.
"Será que você quer testar isso mesmo ou está reproduzindo o que alguém disse que é bom?"
O autoconhecimento é o que permite construir uma relação sexual mais segura, com limites claros e mais prazer.
Estímulo, desejo e a construção da mente erótica
Outro ponto importante é a falta de estímulo ao longo da vida.
"Historicamente, nós mulheres não tivemos permissão nem estímulo para pensar sobre sexualidade."
Enquanto homens foram expostos a estímulos visuais desde cedo, mulheres cresceram sem incentivo para explorar o próprio desejo.
Isso impacta diretamente a forma como o desejo se constrói na vida adulta.
"Será que o homem é mais visual ou ele foi mais estimulado visualmente?"
Essa pergunta muda completamente a forma de entender a sexualidade feminina.
Comunicação no relacionamento: falar também é aprender
Falar sobre desejo não é apenas dizer o que gosta, mas descobrir isso ao longo do processo.
"Muitas mulheres ainda não sabem o que gostam."
Por isso, a comunicação envolve:
- experimentar
- perceber
- ajustar
- construir junto
E também reconhecer limites.
"Você aprende sobre consentimento, sobre o que você aceita e o que você não aceita."
Quando buscar ajuda faz diferença
A terapia sexual ainda é pouco conhecida, mas pode ser fundamental para entender questões que não são simples.
Thalita destaca que nem sempre o problema está na sexualidade em si, mas no contexto em que ela acontece.
"Sexualidade não é algo à parte. Faz parte da saúde." Buscar acompanhamento especializado pode ser o que falta para sair da culpa e da dúvida.
Buscar ajuda é, muitas vezes, o que permite sair da culpa, da dúvida e da sensação de inadequação.
No fim, não é sobre apimentar — é sobre cuidar
Ao final do bate-papo, Thalita sintetiza o ponto central de forma muito clara.
"Para apimentar, é cuidar de si primeiro."
Antes de pensar em técnicas ou novidades, é preciso olhar para:
- como você está
- o que você sente
- o que você precisa
- o que essa relação oferece
"Entenda qual é o tempero que você quer colocar nessa relação."
Porque, no fim, o problema raramente é falta de pimenta.
Muitas vezes, é falta de espaço, de energia, de conexão — e, principalmente, de olhar para si.
Continue lendo
→ Falta de desejo feminino: por que muitas mulheres não sentem vontade
→ Autoconhecimento nos relacionamentos: escolhas que não são suas
Comentários
Deixe seu comentário ou pergunta
Nossa equipe lê e responde por aqui. Mas se quiser falar só com a gente, manda um whats.
Prefere assistir à conversa?
Bate-Papo Olhi: O que fazer para esquentar o relacionamento amoroso?
Agende sua consulta agora com