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    Como ter uma boa relação com os doces?

    Stefanie Schmitt, Letícia Lopes
    16 Abr 2025
    6 min

    Por que sentimos tanta vontade de doce — e como construir uma relação mais leve com a comida


    Em datas como a Páscoa, a cena se repete: vontade intensa de comer doce, sensação de perda de controle e, muitas vezes, culpa antes mesmo de dar a primeira mordida.


    Mas será que essa relação com o doce é realmente sobre o alimento?


    Ou existe algo mais profundo por trás disso?


    Em uma conversa com a nutricionista Letícia Lopes, que atua com comportamento alimentar e neurociência, esse tema ganha uma leitura mais ampla — e muito mais humana.


    "A alimentação saudável não precisa ser um sofrimento."


    O problema não é o doce — é a forma como você se relaciona com ele


    Desde cedo, muitas pessoas aprendem que certos alimentos são proibidos, errados ou perigosos.


    E isso marca profundamente a forma como lidamos com a comida ao longo da vida.


    Letícia traz um exemplo pessoal que ajuda a entender esse impacto:


    "Eu tenho lembranças da infância de muita restrição alimentar e sofrimento com o 'não pode comer'."


    Esse tipo de experiência cria uma relação emocional com a comida, em que o alimento deixa de ser apenas nutrição e passa a carregar culpa, desejo e frustração.


    Com o tempo, essa dinâmica pode gerar um padrão comum:


    • você restringe
    • sente mais vontade
    • perde o controle
    • se culpa
    • e recomeça

    Por que o proibido parece sempre mais gostoso


    Uma das explicações para isso está no funcionamento do próprio cérebro.


    "Quando a gente se proíbe, aquilo se torna mais atrativo."


    Ou seja, quanto mais você tenta evitar um alimento, mais ele ganha força.


    Esse mecanismo ajuda a entender por que dietas muito restritivas costumam falhar no longo prazo.


    Segundo Letícia:


    "O pensamento da proibição ativa o aumento do desejo."


    E não é só psicológico — existe também um processo físico envolvido.


    O que acontece no seu corpo quando você restringe demais


    Dietas muito restritivas podem desregular sinais importantes do corpo, como fome e saciedade.


    "Você começa a não perceber mais quando está com fome ou quando está satisfeito."


    Isso acontece porque o organismo entra em um estado de adaptação:


    • aumenta o desejo por energia
    • reduz a sensibilidade aos sinais internos
    • e pode levar ao descontrole alimentar

    Além disso, quando o corpo sente escassez, ele tende a compensar depois.


    "Quando você passa muito tempo sem determinado alimento, seu corpo vai querer armazenar."


    Esse ciclo ajuda a explicar o famoso efeito sanfona — e por que ele não é apenas falta de disciplina.


    Comer doce também é emocional — e isso importa


    Outro ponto importante é que o doce não está ligado apenas ao sabor.


    Ele envolve cultura, afeto e recompensa.


    "A comida, especialmente em momentos como a Páscoa, envolve troca de afeto, convivência e memória."


    Além disso, existe um componente químico.


    O chocolate, por exemplo:


    • ativa dopamina (energia e motivação)
    • influencia serotonina (bem-estar)

    "Se a pessoa está fragilizada emocionalmente, ela pode buscar mais esse tipo de alimento."


    Isso não significa vício no sentido clínico, mas sim uma busca por regulação emocional.


    Existe uma quantidade "certa" de doce?


    Sim — mas ela não é universal.


    Cada corpo tem uma necessidade diferente.


    Letícia explica que o mais importante não é seguir regras rígidas, mas desenvolver consciência:


    "A quantidade vai variar de pessoa para pessoa. O importante é observar."


    Mais do que calcular, o caminho está em perceber:


    • quando você quer comer
    • por que você quer comer
    • e quando aquilo deixa de ser prazeroso

    Um ponto interessante:


    "Depois de algumas mordidas, o sabor já não é mais tão interessante. A gente continua no automático."


    O maior desafio não está no prato — está na mente


    Para construir uma relação mais equilibrada com a comida, é preciso olhar além da alimentação.


    "O principal desafio é romper a crença de que você precisa viver no 8 ou 80."


    Essa lógica de tudo ou nada — ou restrição total ou exagero — é uma das principais causas do desequilíbrio.


    E, muitas vezes, ela vem de padrões aprendidos ao longo da vida.


    Permissão não é falta de controle


    Um dos pontos mais importantes que Letícia traz é a diferença entre permissão e permissividade.


    "Permissão não é comer sem limite. É sair da proibição e fazer escolhas conscientes."


    Ou seja:


    • não é "liberar tudo"
    • nem "proibir tudo"

    É aprender a se relacionar com a comida sem culpa — e sem excesso.


    Por que a culpa piora tudo


    Quando a alimentação é guiada por culpa, o ciclo tende a se intensificar.


    "A frustração leva a comportamentos mais intensos, como exagerar ainda mais."


    Esse processo envolve tanto emoção quanto química:


    • aumento de estresse
    • busca por prazer imediato
    • repetição do comportamento

    E, com isso, o ciclo se reforça.


    Como começar a mudar essa relação


    Segundo Letícia, o caminho passa por reconexão.


    Reconectar-se com sinais que já existem no corpo, mas que foram ignorados ao longo do tempo.


    "A gente nasce sabendo quando comer e quando parar. Esse controle vai se perdendo."


    Uma estratégia prática é simples, mas poderosa:


    • comer com atenção
    • observar o sabor
    • perceber a saciedade
    • entender o contexto emocional

    Uma dica prática para momentos como a Páscoa


    Em vez de tentar controlar ou evitar totalmente o doce, a proposta é mudar a forma de consumir.


    "Coma com atenção, aproveite o sabor e não no automático."


    E um ponto importante:


    "Você não precisa comer tudo de uma vez."


    Essa mudança de postura já altera completamente a experiência.


    No fim, não é sobre comida — é sobre relação


    A forma como você se alimenta está profundamente conectada à forma como você se percebe, se cobra e se relaciona com o mundo.


    "Para ter uma mudança real, é preciso olhar para o comportamento, não só para o alimento."


    Mais do que dieta, trata-se de entendimento.


    Mais do que controle, trata-se de consciência.


    Se você quer entender melhor sua relação com a alimentação


    Na Olhi, você encontra profissionais que ajudam a olhar para a alimentação de forma mais completa — considerando corpo, emoção e comportamento.


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